quarta-feira, 25 de junho de 2008

Durmo ali no meio:

Respingos do tempo! – Dry Neres





Lembrando dos tempos em que minh’alma se enclausurou, nunca fora registrado antes um momento de tamanha reflexão. Eu quis dormir nessas letras nossas. E a imagem que me vinha sempre à cabeça, era a de um lobo e a de uma criança. Ora, por quê? Porque de lobo, gosto de apelidar o tempo, e com certa raiz de inocência, apelido-nos como crianças. Eu me sinto num redemoinho sendo perseguida, querendo correr, e as areias da ampulheta, não me soltam as amarras. As areias que nós mesmos criamos para justificar nossa falta de comprometimento com nosso local de dormir, o tempo. Fico literalmente paralisada, em outra situação, quando quero ficar quieta, calma, demorar sentindo, fazendo, e sou arrastada como que por um carro a 850 km/h.
Recordo de alguns momentos que duraram segundos, outros segundos que se perpetuam até o presente momento. É tão ambíguo e tão ousado falar sobre o que mais aflige e aprisiona os corações e os olhos humanos; mas é necessário. É necessário beijar essa dor que sinto agora, dor agonizante de quem gosta de construir de mãos vazias, desarmada. Os relógios estão presentes, nos pulsos, paredes, gavetas, livros, cabeças, homens, máquinas, copos, corpos; estão presentes, como se gritassem: - Ei, não olhe tanto pra mim. Há séculos eu venho tentando explicar que o importante mesmo é se voltar aí pra dentro de você e me tirar das paredes, pulsos, me tirar de você. Vocês nunca me alcançarão. Venho de outras vidas, passadas, que se cruzam com estas, e com aquelas que virão. Estou sempre um passo à frente, mesmo quando a pintura do quadro, quer dizer que não. Eu determino suas ações. Eu sou o responsável pela sua matéria, artéria, coração, brônquios. Você, me deu toda essa importância. Você, me fez desacreditar que eu poderia mudar algo em algum lugar, em alguém. Mas eu, ainda curo feridas, trago amores, levo paixões, alimento, cuido de você. Te faço carinho, quando você pega alguma carta antiga, ou quando escreve na virada do ano, teus anseios de longo alcance. -
Para uns ele demora, para outros ele se apressa. O amado já beija a esposa, olhando para o relógio. O filho diz, “eu também te amo, mãe”, preocupado com a hora que vai chegar na faculdade. Mas... E o espírito humano? O que faz ele nesse espaço de tempo tomado integralmente pelas necessidades corpóreas tão prioritárias? Seria bom mesmo, conseguir vivenciar séculos, durante nossa curta passagem por esta Terra. Fico a imaginar, o que percorre a mente de uma senhora de 86 anos. Ou por exemplo, o que transborda na mente de um bebê de cento e vinte dias. Gosto de modo singular, da formação do tempo interno... Do que nós mesmos inventamos. Inventamos porque a idéia errônea de que a face que contemplamos nesse exato momento no espelho, será refletida daqui a vinte anos, nos infla o orgulho.
Fico pensando no tempo dos meninos que andam descalços, sem pai nem mãe, sem lar nem cama; para eles, acredito não existir relógio. Para muitos, acredito não existir relógio. Talvez eles sejam mais felizes porque não se preocupam em derreter imagens formadoras de outras. Eles vão vivendo. Alguns, nem sabem quantos anos tem. Felicidade deles. Porque ao contrário do que já li em algum texto, gostaria de que não tivessem anos, nem séculos, nem dias; gostaria que houvesse um todo. Um todo coletivo, suscetível a todo tipo de contemplação nossa, sem delimitação. “Adultos” gostam de números. Mas eu continuo bem ali... no meio! Mais um respingo do tempo...
Ps.: Amigo poeta, Meireles Rodrigues, espero não ter te decepcionado com a "encomenda"... Como venho dizendo, tenho escrevido nesses dias meus, com pernas frágeis de criança. Entrego tudo àquele que sabe de tudo e que tem me movido nesse momento: Chronos, o mesmo que fez com que minhas linhas chegassem aí até você. Com todo carinho e admiração que carrego pela sua existência!

16 comentários:

Filósofo disse...

Os relógios gritam, isso é uma verdade tão pura...
Levei um tombo ao ler tudo isso, caí diante de um imenso relógio e consegui não olhar pra ele.
Obrigado por traduzir em palavras, coisas que sinto e não sei dizer.
Obrigado por ser mais eu do que eu mesmo.
Um abraço.

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Mas você é demais, simplesmente demais,com seus relógios marcando o tempo perdido.seus textos são divinos, me contento em ficar aqui mais um pouco, quando a Salvador, não há muito o que dizer. Fiz postagem nova, apareça por lá.beijos.

Miguel Barroso disse...

Também moro por lá!
Abraços do EU, SER IMPERFEITO e d´A SEIVA

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Aviso: mesma mensagem para todos devido ao meu estado precário. Ainda estou no hospital, mas um amigo da blogosfera fez um retrato meu com o qual fiz um post. Apareçam por lá para exprimir a sua solidariedade:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com/
não há ponto depois de www
Beijos,
Renata
PS: E visitem o artista pondo um comments no meu retrato
Adoro esse quadro do Dalí

Poeta Mauro Rocha disse...

Adoro o surrealismo!!Muito belo seu texto!!
Ola!! Fiz uma sigela homenagem a você e a todos os que visitam e comentam e gostam dos meus poemas, em fim, espero que goste.

Um abraço!!

Poeta Mauro Rocha disse...

Perdão!! Mil perdões!! É que ao fazer a montagem não percebi a falha, porém está corregido e feita a singela homenagem a você.Mais uma vez me desculpe.

MAURO ROCHA

Amannfredini disse...

Escrever sobre o mesmo tema no mesmo dia!
Incrível!
Além de me identificar com as coisas que você escreve, acho que "Gosto de modo singular, da formação do tempo interno... Do que nós mesmos inventamos." caberia precisamente no meu texto!

Perfeito!

Amannfredini disse...

Escrevi porque ando irritada com os ponteiros do relógio! Com todo aquele cálculo absurdo que prende as pessoas... Você tem que fazer tal coisa até tal hora... Ficar em algum lugar de tal a tal hora... Isso torna escasso os momentos em que a gente quer fazer algo que realmente quer fazer... Isso tem me aborrecido um bocado!

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Tive hemorragia interna, o que significa mais um dia, no mínimo, de hospital.
Beijos da Rê

Amannfredini disse...

Que você consegue ver as feridas com os seus olhos, não me restam dúvidas!
Acho que me abro demais, mas mesmo assim busco deixar coisas implícitas... E se as pessoas que acessam meu blog lêem seus comentários, elas se tornam claras.
Muitas vezes meus textos são traçados por angústias do dia-a-dia e ler o que você escreve me encoraja a mudar alguns rumos...

Grande beijo!

Amannfredini disse...

É perceptível!
Acho que gostará do texto que acabei de postar... E não se assustará caso se encontre de algum modo nele!

Poeta Mauro Rocha disse...

Entendeu direitinho o recado do poema "Tocar o Gelo"


Um abraço e ótimo fim de semana.

Amannfredini disse...

Me deixa feliz quando um texto meu agrada uma pessoa que acho que escreve infinitamente melhor do que eu...
Algo que me faz crer que ando pelo caminho certo!

prafrente disse...

Você é uma mulher hipersensivel.Nós expomo-nos pela maneira como escrevemos.
Torça por Salvador Dali mas não esqueça que ele era um pouco...digamos...desiquilibrado da cabeça.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

DEsculpe não comentar, mas já li esse post 2 vezes. Min ha querida Dry, saí do hospital, estou de volta! E já um postei uma resenha para todos e, em especial, àqueles que me deram força, como você.
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
não há ponto depois de www
Não precisa ler a úlima cena, é opcional.
Um beijo,

Miguel Barroso disse...

Esqueci de me dizer que o relógio etéreo tem os pontos nos iis.

Abraços do EU, SER IMPERFEITO e d´A SEIVA