terça-feira, 16 de setembro de 2008

Talvez ainda seja
Dry Neres






As ondas do mar espreguiçaram-se sobre os meus pés. O sol bocejou-me, indicando que eu passara o dia inteiro ali, sentada. As estrelas não se demoraram em cair sobre minha cabeça em gotas cintilantes, como se caísse o próprio céu. As areias fizeram-se minha própria pele, porque de compaixão elas sofriam ao ver que eu estava em carne viva. Anoitecia. Um cenário dramático para quem carregava somente uma mochila óptica cheia de vento, que guardara para brincar de tocar os nadas, caso lhe faltasse algo a fazer. Em largos goles, a ausência da luz dos meus olhos, bebia-me, sugava-me, arrancava-me da presença minha. Quisera eu, saber ser uma fazedora de histórias, uma vendedora de passados, uma invenção boa de algum Nicholas Shakespeare, uma personagem Julietiana... me restou, o Ser Onomatopáico, onde exalar sons me fizera ser o bastante. Eu me acostumei com a minha condição de gente, já que bicho tem que morar na selva e não pode entrar em biblioteca. Dou mil voltas, em mil haréns e retorno com o mesmo véu: a falta tua em mim. Hoje me recordei do riso de doçura sibilante, do olho ansioso que não sabia bem fitar os meus por muito tempo. Recordei-me da dor primeira que avistei em teus olhos e dos dias em que quis ser teu porto, tua felicidade e teu vinho. Vendo como uma Osga de atividade cinegética, fico presa à idéia de que estou certa que terei de te levar ainda por muito tempo por aqui. Porque da árvore que brotam minhas palavras, você se fez a raiz. Eu temo ter que parar de escrever, por minha raiz ter-se encurvado. Eu temo que talvez ainda seja... que talvez ainda seja amor o que eu sinto. As ondas voltam a se espreguiçar e me trazem a difícil missão de adivinhar o que vai arranhar meu dorso. Se serão as aves ao se esquivar, ou se o vidro vai correr pelo rio em cabelos de espumas incandescentes. É a difícil missão de adivinhar... Porque talvez você tenha sido meu amor mais intenso e doce. Talvez ainda seja!




ME EMBRIAGO NA TUA AUSÊNCIA, PORQUE DE ALGUMA FORMA, VOCÊ MORA NUM PEDAÇO MEU. SEJA EM QUAL VIDA FOR, SE SEREI UMA FOTÓGRAFA DE GUERRA, OU UMA SIMPLES COLECIONADORA DE IMAGENS DE LUZ. SE SEREI MENDIGA OU CLEOPATRA, AS RUINAS OU AS RAMAGENS... SEREI UM PEDAÇO TEU. SEREI A MEMÓRIA TUA EM MIM, EM CONSTANTE MUTAÇÃO. TALVEZ AINDA SEJA.

11 comentários:

Anderson Meireles disse...

Alguma pessoas possuem amores arrebatadores, que por vezes podem ser tão grandes, a ponto de causar medo em quem não merece,
abraço!

Poemar disse...

Dry,

Desta vez, tocaste-me profundamente, mas de uma outra forma, diferente das anteriores, até porque, se não é equívoco meu, também estás, neste texto, expressando-se de uma maneira especial. Pois é, querida, parece-me que, aprendeste a fazer da dor uma linda prosa, uma sentida e tocante prosa. Se eu te disser que, cada linha deste texto, é uma história que estou vivendo...Pois é, "é preciso endurecer sem jamais perder a ternura", já disse o grande Che!

Deixo-te um poema que escrevi num destes momentos de dor, hoje de madrugada.

O silêncio das estrelas

No silêncio das estrelas
há a profunda expressão de coisas não ditas,
mas que permanecem a observar caladas.

...De luzes refletidas
sobre a imensidão de um universo,
que se move, sem sequer percebê-las,
apesar de por elas ser iluminado.

No silêncio existe a vida
que viaja na velocidade da luz,
sob o comando
do soberano senhor do tempo,
rumo à eternidade.

...Brilha a poesia,
resiste por acreditar
que em algum lugar do infinito Cosmo
haverá um eco que a perpetuará.

Gerlane

*Beijos, garota prodígio!

Ana Diniz disse...

Olá Dry.

Fiquei muito feliz com a sua visita. E convido-te a acompanhar aquela história de amor que vc apreciou. Estou publicando sempre "os acontecimentos futuros" desta.

Como de costume lá no meu blog, respondi ao seu comentário com carinho.

O seu espaço é por demais interessante. Escreves bem, aprofunda-se na aura das coisas, perpassa as películas... e as vê do outro lado. Percebo uma forte ligação com a Espiritualidade. Estou correta?


Grande bjo, querida,

Ana.

Veneno Antimonotonia disse...

"Talvez ainda seja" .
Ao menos a sua história se permitiu um talvez.
Tão bonito, tão vivo !
adorei.

Um beijo, linda!

Poeta Mauro Rocha disse...

O amor e suas manhas e arte manhas, ótimo texto, profundo, belo...

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Aqui hoje chorei!
Cada palavra, cada letra deste poema me emociona!
... que chorar faz bem.
espero que isso seja realmente verdade.
Você hoje me encantou!
Apareça!

Camila disse...

vejo o amor e a aflição em uma dança simbiótica...

Na verdade não vejo só esses dois assim, dona Dry... ;)

Lindo, reavivador, perfeito!

Até mais. Moça!

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Oi Dry
Gostei dessa de bicho não freqüentar biblioteca... mas tem hora que queria ser bicho, menos complicado.
Gente é complicado demais...
Amores... Ah os amores, que insistem em aumentar quando deveriam acabar... que tornam-se ausência quando deveria ser só saudade...
Amores... aqueles que sempre possuirão a melhor parte de nós.
Podemos amar outra vez, diferente, mais ou menos... mas nunca será igual.
beijo e luz

Cadinho RoCo disse...

Na dúvida o amor vai embora dispersa porque há nele um porpósito de fé certeza indomável a capturar de nós questionamentos antes tão constantes.
Cadinho RoCo

João Videira Santos disse...

Um texto intenso onde as palavras degladiam verdades na fantasia da afirmação...Gostei!

pensador made in vaso disse...

Are you in love?

boa escolha de começar o post com camões.

abraços