terça-feira, 9 de setembro de 2008

A batalha nossa de todos os dias
Dry Neres




Mais do que denúncias sociais interiores ou externas, minhas palavras devem ser um grito!

Lembro-me das telas e arames e tiros. Lembro-me do soldado que tatuou o movimento de atirar em seus pensamentos, e que fora acometido pela loucura dos que se dizem sãos. Penso com rude tristeza nas famílias que se viram obrigadas a deixar suas casas, cada uma com um tiro nas mãos. Retalho os olhos de sangue, sentindo o cheiro do vermelho vivo que escorria das cabeças dos esquartejados. Vivo pensando na dor que emanava da respiração ofegante dos que corriam descompassados com as bocas abertas à espera que de algum helicóptero escorre-se grãos de arroz crus e sujos. Eu só não corro porque tenho pressa. Estranho? Bastante! Mas, eu só não corro porque tenho pressa em desenhar cada história dessa, em que o protagonista é o João, o Zé, o Tiradentes, a Olga, o Che, Eu, Você. Nossas faces estão entrelaçadas, nossos corpos separados pelas armas frias, as gentes frias, o tempo que se esfria a medida em que as geleiras derretem. Os animais vêem suas peles sendo arrancadas enquanto o coração ainda bate. As crianças vêem os cortes que as janelas fazem em seus pequenos corpos. Os idosos sentados nos bancos vêem injeções de morte a cada segundo. As escolas perderam as cadeiras e deram espaço à cadeias que abrigam os sedentos de sonhos. O dólar sobe, os sete-palmos descem. A fome assola e assombra. A vaidade estampa e estanca as máscaras já riscadas. Os políticos em seus "jogos de futebol" driblam nosso humor. É o mundo que pára entre o Obama e o McCain. Os furacões avançam no mesmo instante em que artistas apresentam suas coleções de grife. Ainda sonho com uma apnéia pela paz!

A batalha nossa de cada dia, consiste simplesmente em saber ver flores em pedras. Consiste em sorrir enquanto somos afogados pelas bocas salivantes de mentiras fantasiadas de poesia. Eu vejo o ouro transformado em enxofre. Eu vejo pérolas sendo dadas aos porcos. Eu preciso gritar, porque mudo se fez o mundo-do-medo-maior. Os jornais não noticiam o nascimento dos bebês, nem a vitória dos que aprenderam a lidar com suas adversidades. Não dá ibope! Ibope mesmo é ver o BOPE "agindo" nas favelas fluminenses, ou o desfile da tal "Independência" na Esplanada. Bonito mesmo é a anorexia, bulimia. Bonito mesmo é fazer penteado de bicho em cabelo de madame. O cuidador de carros do estacionamento dos Ministérios não importa. Ele é só mais um Zé e a história dos homens grandes não contempla os Zé's, mas sim os Goulart, Ferreros, Petrarcs, hipócritas, profanos...

Das bocas que se inclinam em direção ao céu...

Dos sangues que jorraram das cabeças...

Das bruxas que não ousei falar...

Do ouro transformado em enxofre...

Que tudo mude, ao menos um pouco.

Que tudo fique, de alguma forma melhor.

10 comentários:

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Oi querida
Se continuarmos, sempre alguma coisa ficará melhor, porque estamos em ação!
Pior são os que vêem e calam!
Hoje eu grito.
Você grita!
Um dia nossos gritos serão desnecessários, porque o homem entenderá que a Paz, o Amor ao Próximo, a Fraternidade, a Solidariedade serão intrínsecas a todo ser humano.
Eu creio!
Estou meio sumida porque no consultório da Bi ainda não tem internet...
beijos querida,

Gerlane disse...

Grito contigo, Dry!

Sou uma rebelde por uma justa causa: a vida! A vida em sua plenitude, o direito de cada ser à vida! Por isso, uso minhas mãos, palavras e cores, para tentar contra a batalha insana, usar minhas armas de amores. Se me sinto atuante? Às vezes, insignificante, mas sou perseverante, neste mundo injusto e com as minorias, intolerante. Mas, avante, companheira! Enquanto existir eu, tu , NÓS, vós e eles, poucos, mas bravos amantes da vida que pulsa no verso e reverso da poesia, da alma, persevera também a esperança, como num sonho de criança que nunca sai da lembrança.

Beijooooossss, querida!

Cadinho RoCo disse...

Existe um momento em que somos cobrados por instante de desabafo e por incrível que pareça, espontânea sintonia nossa, quando isso acontece com você aqui, acontece comigo lá no Meu Nosso Blog. Nada combinado, tudo ajustado assim. Será algum sinal?
Cadinho RoCo

Poeta Mauro Rocha disse...

Dizem que o silêncio vale ouro, mas o grito vale a denúncia, vale para ecoar e um dia alguém notar que não estamos sozinhos e algo deve ser feito para que possamos viver pelo menos em harmonia.Ótimo texto como sempre, você deveria publicar seus textos.

Bjs!!

Vulcanicos disse...

Por Deus!
Seus textos são tão incríveis!
Soam tão introspectivos, mas ao mesmo tempo parecem feridas abertas que não possuem o desejo de cicatrizar, deixando aquela sensação latente e palpitante o tempo todo... Que dá vontade de gritar, espernear e colocar tudo para fora.
Você é ímpar.

Beijos!

Anderson Meireles disse...

Há uma canção bonita que toca enquanto leio bem devagar esse texto...
Quando leio textos como esse, ouço uma música que toca entre um silêncio e outro, entre as palavras.
E grito também.
Abraço!

pensador made in vaso disse...

hoje a melhor denùncia é a arte, se não somos tomados por malucos.Se optarmos pela arte, somos gênios da humanidade, cumprimos o nosso dever, se alguém não entendeu:dane-se, garçom, mais uma cerveja por favor.

abraços libertários

ps: vc é patriótica?

Shirley disse...

É Dry...
Meu grito contido,engasgado que quase me inflama o peito é expelido por suas palavras.Quantas vezes assistimos todas essas coisas: omissos,covardes,indiferentes....
Mas, ainda bem que existem pessoas como "VOCÊ", que foram escolhidas a dedo por Deus para expressarem de forma sensata nossas revoltas quanto a tudo que fere a vida.
Obrigada por me fazer gritar também!
beijoss

pensador made in vaso disse...

na boa: não sei como t axei, mas inda bem q isso ocorreu.Vc escreve tudo o q sinto, tudo q já escrevi e escrevo, seja em pueris versos, seja em crônicas, contos e romances.Um grito sai do nosso peito.Estamos vivos.We'll alive! (se o inglês estiver errado, por favor, me desculpe).Vc conquistou um leitor assiduo.

abraços libertários

ps: só a formatação (ou desformatação) dificulta e/ou cansa a leitura.

pensador made in vaso disse...

ps: tbm não sou patriota.De tanto ser policarpo (ler Lima Barreto)me ferrei na vida, me desiludi com tudo e passei a odiar toda forma de governo e o capitalismo.