sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Eu não sei beijar
Dry Neres



Eu não sei. Nunca soube beijar o amor. Talvez boca seca, talvez seja salivante demais. Talvez mãos que fogem uma da outra. Talvez, só falta de sorte. Eu não sei beijar minha alma. Talvez seja tão malfadada. Talvez, só falta de sorte e mais nada. Nas noites em claro do mais profundo sono de fuga do corpo. Durmo, sonho, corro só para te esquecer. Almofadas vermelhas, luzes escuras, o vento transparente... Você, um lugar seguro que não posso me refugiar. O amor são meus dedos, minhas unhas cravadas nas pálpebras tuas. O amor é minha teia, veia, pés. Oh amor, eu não sei beijar-te. Eu não sei te fazer dançar. Procuro ritmos descompassados, malfeitos, desleixados... encontro você, tão perfeito e drástico. Oh amor, eu não sei beijar. Entre permanecer e morrer com teu veneno doce... fico! Fico sem saber o que fazer, porque a velocidade da paixão que tenho, ultrapassa a digitalidade das fotos que são rápidas em registrar-te parada, fugaz. E já me pergunto. E já me respondo. Eu não sei beijar, amor meu, princípio da minha lealdade expressiva e das falas poeticossintetizadoras.

Eu e meu anacronismo. Eu e meu antagonismo. Uma toupeira, um bicho romântico que não sabe falar ao celular. Que anda em contramão à evolução. Que quer retornar, mas sabe que as pernas não suportariam sozinhas e que quer seguir em frente, mas sabe que os cabelos mudaram de cor. Não sei mais tocar borboletas, nem revolver vulcões. Muito pior ou menos, sei ajeitar meu jardim com bancos coloridos para que você repouse. Encontrei uma placa no caminho arborizado pelo qual caminhava e ela balbuciava assim: "Aqui mora teu remédio. Vire à direita". Segui em frente e li outra: "Passaste por teu remédio e não o tocou. Beba a tua dor. Vira à direita". Em outra placa mais a frente ouvi os seguintes dizeres: "Senta, ouve, pára. O amor também ensina a beijá-lo. Embora não tenha manual, ele te explica o que não cabe em livros. Fique. Espere. Respire. Não vá para direita, nem para esquerda, nem ande, nem volte. Fique".

Me peguei a pensar nisso tudo. E assustada esfregando os olhos com as mesmas lágrimas ácidas, percebi que tenho várias placas dentro de mim. Mas que sendo o amor movedor de toda a minha poesia (sim! Poesia que é a vida minha), eu deveria me guiar somente por ele. Apesar de nunca ter sabido beijá-lo de forma eternal, eu posso esperar que ele me beije. Me ensine, me dê palmadas. Desenhe flores ou pedras em meus caminhos. Me tire a miopia, me tire toda a razão que movem os homens sem fé e sem emoção. Aprendi que posso beijar maçãs, ou livros, ou violões, ou fotos, ou vidas. E não preciso saber fazê-lo. A desconstrução é a maior dádiva que o ser pode guardar nos seios. Quebrar ondas de mar e fios elétricos é desconstruir, porque você aprende que o beijo não é tudo.


SOLTA-ME A ALMA. DERRUBA-ME EM VOCÊ. ME ARRANCA A GARGANTA TRÉPIDA. ME TIRE OS ÓRGÃOS VIVOS. LEVE MINHA PELE. ME LEVE... LEVE QUERIA EU ESTAR. LEVE, ATÉ COM FALTA DE AR. MAS LEVE, LEVE, QUERIA ESTAR. TEM GENTE QUE PARECE TER NASCIDO SÓ PARA SOPRAR AMOR, NÃO PARA ENGOLIR. EU, SOU!

Pra você, de voz infantil e doce...

9 comentários:

Anderson Meireles disse...

Li em algum lugar que o amor é uma arte, e sendo uma arte exige conhecimento, esforço e habilidade.
Tenho pra mim que é arte que não se ensina. Como um dom.
Já o beijo é manifestação da arte de amar.
Amo, logo beijo.
Beijo, logo amo.

Abraço, beijo!

PS: ADOREI AS PLACAS, ELAS SÃO MUITO ÚTEIS QUANDO SÃO BEM INTERPRETADAS.

Shirley disse...

Foi inevitável...fui as lágrimas com tanta sensibilidade e amor...suas palavras me comoveram de forma arrebatadora...e isso pq não sabe beijar hein?!?!...imagino se soubesse!Querida,não desfaça esse jardim tão belo.Deixe que ele floreça e que o perfume das rosas te tragam boas novas ao amanhecer.
Te admiro!
Te louvo!
De nobre coração te agradeço por tanta beleza neste espaço.
Beijos

Cadinho RoCo disse...

Constatação maravilhosa de quem convive em franca intimidade com o amor e que uma vez beijada por ele percebe que o seu beijo torna-se um nada diante daquele que recebe. E de tanto saber beijar, eis que esbarra na necessidade da desconstrução, para que fique integralmente exposta ao aprendizado. Não fosse isso só um comentário, partiria para o discurso, por força de tamanha empolgação que obtenho de leitura tão envolvente.
Cadinho RoCo

Gerlane disse...

Nossa, Dry!

Você tem o dom de me tirar o fôlego quando te leio! És tão impulsivamente sincera, que me surpreendes! Minha nossa!...

Beijos pra ti!

Poemar disse...

Eu já te disse isso uma vez, mas vou repetir: te ler é como descer num elevador a 100 km por horas.

Beijos de mar!

Gerlane disse...

Dry, querida, bom dia!

Ótimo acordar postando um comentário teu. Quanto ao link...Mas, é claro que sim! Sinto-me honrada e, vou te confessar um pecado(olha que não costumo fazer isto, pois quase não peco - rsrsrs...), mas já linkei o teu blog ao meu, mesmo sem pedir permissão, perdoe-me, por favor!

Adorei o beijo! E, modesta, ainda diz que não sabe beijar, e tira, assim, o fôlego, minha nossa!...

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Bom dia, Dry!
Beijar...É mais que beijar
Paixão...Não tem explicação

Poeta Mauro Rocha disse...

Ola!!!Muito bom seus textos!! Publiquei novos poemas, no estilo haicai, espero que goste!!!

BJS

MAURO ROCHA

Suzy disse...

É uma forma sutil de dizer o quanto o AMOR pode doer...
Entender que mesmo sendo LEVE existe nele o peso do sentimento
que tanto quermos pra nós.
A incerteza dos desencontros amorosos, mas a busca constante pelo melhor de cada um...

Se tiver de escolher
que seja sempre
amar e sofrer...

Para amar cada vez mais.


Bjos mil sempre!!!