segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Fora de órbita
Dry Neres





Me levaram o brilho dos olhos e minha poesia... Empilharam aos montes em corações que gelados eram... e se deixaram aquecer! Se esqueceram do meu... que de quente que era, se congelou... Meu corpo permanece desacordado. Não pulsa, não rege, não reza.
Porque a minha religião se foi. Porque minha religião era você. E meus sonhos se enrolaram em papiros que tomaram o rumo pra onde apontava o sol. Eu, com os bolsos furados e as mãos nos furos... permaneço: DESACORDADA.
A órbita da terra passou por mim como um quadro rasgado e nu... me disse "vai", mas foi antes de mim. São efeitos borboleta, mas tentar entender qualquer coisa só vai causar mais dor a uma alma que só queria se enclausurar nela mesma. E quem sabe ousar ter identidade com foto e o nome teu assinado por mim. Sim porque quando se ama, deveria deixar de assinar os nomes separados... e passar a assinar apenas um. Assim como o corpo deixaria de respirar sozinho se o ser amado desse passos maiores que os teus.
Se eu pudesse te mandar recados criptografados com as fotos que tiraríamos um dia... ou a receita do doce que faríamos numa tarde qualquer... ou registrar o barulho do balanço do parque onde iríamos numa tarde fria, desafiar a neve que cobre os pés... ou somente que eu pudesse apagar você dos meus lábios, da minha pele, dos meus dentes que rangem de aflição nessa ausência tua, amor intocável meu. Eu te proibo de visitar meus sonhos e pensamentos e de calçar minhas sandálias molhadas com a chuva dos meus olhos... Eu te proibo de ser minha igreja, meu templo, minha vontade, minha canção, minha luz d'alma...
Vai! Alça vôos maiores que tuas asas, porque sei que você os alcança... mas fica em algum lugar. Se satisfaça da água e da sombra. Talvez pare de buscar. O encanto se perdeu, ficou o sentimento primeiro, nobre. Não ficou nada. Talvez a marca das unhas tuas nos meus pensamentos. Quem sabe as meias que você não gosta de usar. Quem sabe o sorriso abandonado que abandonou o meu...
Ai, amor primeiro... anjo que sonhei ser meu sonho durante todo esse pesadelo. Minha religião. Não te rezarei mais. E me esquecerei do sol que brilhava em teus cabelos dourados. E me esquecerei do sangue que corre em mim para que eu não me lembre do vermelho da tua boca. Farei questão de esquecer dos meus braços, porque eles também me lembram os teus. E esquecerei esta e aquela música. E sabe o problema disso tudo? Eu esquecerei os símbolos! Mas e você? Tatuagem virou. Quem sabe um dia o sol dos teus cabelos me queime tão forte que ela evapore dos poros que guardam o cheiro teu. DESACORDADA, estou. Sem acordes, não me acorde. Me deixa deitar... na sombra que ainda me resta repousar o anel que um dia guardei pra coroar teus dedos. DESACORDADA, permaneço!

6 comentários:

Anderson Meireles disse...

"Quem sabe além do espelho, na outra metade do que nunca viu, você possa se reconhecer..."

Vou te contar um segredo: Brilho dos olhos e poesia são elementos que podem se renovar e renascer.
E o gelo de um coração congelado, num dia de sol, derreterá.
Essa dor doeu em mim também,
forte abraço!

Rinnaldo Alves disse...

Assim como vc, eu tb fiquei desacordado.Mais do que isso até, sei lá,algo assim que eu não sei definir,decifrar.To escondido, ali, num lugar entre o fascínio e o pensamento teu,com as mãos no rosto, feito criança antes do banho...

Grande bj...

Paradoxos disse...

é muito bom quando estamos a ler um texto e nos identificamos com as letras e com a sentimentalidade assim como os "insentimentos" do outro, parece que este "outro" somo nós e faz parte da nossa vida!! incrível a forma como te escreves e descreves as tuas vivências!!

APAIXONANTE!!!!!

AMEI!!


beijos

do

teu.....

paradoxos

:-)

Crisfonseca disse...

Belo texto, profundo, senssível, emocionante.
Beijos,
Cris

Cadinho RoCo disse...

Você irá acordar. Aliás, em sonho já acordou desacordada daquilo que violou toda sua concordância agora preparando-a para acordar em dimensão outra.
Você irá acordar. Aliás, já resiste a este estado que coloca em você esta situação desacordada para o que não quer, mas acordada para o querer. E deste seu rompimento, eis que surge nascimento a traze-la tão bela e inteira.
Cadinho RoCo

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Que texto lindo, eu também já gelei meu coração e jurei mil vezes não te rezar mais.
Apaixonante.