
Já procurei habitar reinos inabitáveis, rir risos contidos, escrever o que não sei. A literatura da minha vida é extensa. Não é simbolista, nem tão moderna. Na verdade, sim eu vou falar: - Eu sou romântica em cada fibra do meu corpo. Vejo-me aqui, em cansaço descomunal, em olheiras que se formam em meus dedos, nesta noite em que o frio veste a alma, neste quarto em que me dançam os violões. Meu corpo treme, reza, pede. Pareço estar em febre parafrástica. Tento pousar os pensamentos num papel qualquer, mas eles em confluência, parecem não querer ser traduzidos. Talvez esta noite tenha duas pernas, talvez seja curta demais. Insônia! Por incrível que pareça, os sintomas estão em evidência. Eu sinto uma febre de palavras que soam nas mais diversas estrofes por onde perpassam minhas idéias fugídias. É febre interna, desde que eu brotei aqui. E cada música tem o mesmo perfume, e em cada perfume o mesmo som. Penso que desta vez o amor me bate desesperadamente à porta. Pede passagem e segue viagem. Ele não costuma ser tão insistente. A minha literatura repousa na inquietação da alma. O tempo foge do meu controle. Sinto frio. Fome. Sede. Sinto vontade de voltar. Mas pra onde?
O silêncio e as mãos que apoiam minha face, permitem que lágrimas-várias escorram sem ao menos molhar meu local de guardar os olhos. Eu não sei mais chorar. A febre aumenta, e minhas células se batem, se queimam. Minha literatura não é o realismo. Minha dor nunca é a mesma, porque as alegrias também mudam. Já vi tantas vidas passarem pela minha. De algumas mal lembro, de outras quando o vento vem e me sopra as falas. Nunca me esqueço de uma palavra que fora lançada aos meus ouvidos, mesmo que esta tenha setenta anos caducos dentro do meu sensível e intuitivo tom memorialista. É de estranheza ímpar que eu me encontre aqui tão tarde, a cantar minhas verdades. Me desintegro. Não se preocupe, está tudo bem. Da minha doença, eu é quem sei. Do meu remédio, sei que a receita está ao alcance da minha mão esquerda. Finjo esquecer disso tudo. Assistir ao jogo é mais seguro que jogar. Os graus aumentam, meus poros se molham. Eu tenho febre. Física. Meus pulsos abriram. Meus céus se distorceram na brancura dos meus cabelos negros. A atividade quase semântica do meu ato de escrever, me causa desesperação. Quero escrever tudo. Quero escrever o mundo. Mas ele se condensa em gotas doces, onde escorre pouco a pouco longe de mim. Os mundos são vários, muitos. Ninguém vai conseguir traduzí-los nunca, porque são muitos. Os mundos são vários, de todas as cores, de todas as gentes.
No meu arquipélago febril, onde meus órgãos parecem se cozinhar, me deixo dormir em cima da minha literatura, do livro que é meu travesseiro. As vistas baixas, o olho menor do que de costume, as luzes que não vejo, a máquina de escrever que se move lentamente fazendo o som de vento... Eu só queria tomar esta música num gole só. Eu só queria que o amor fosse de verdade. Queria saber ter coragem. A febre aperta-me a garganta num gesto rude de me levar minha clave de sol, de não me fazer enxergar os pássaros amanhã quando houver dia. Estou a delirar. Tudo que escrevo é desvario, é delírio de loucos. É passagem para a barca que não sei se conduz à parte clara que tanto pintam como a mais bonita. Minha literatura é jardim de uma flor só. Só preciso de uma. Só preciso de ar. Eu vou tomar o remédio, um dia. Mas me deixa ter febre somente por mais essa noite. Me deixa repousar na copa das árvores de folhas molhadas pelas lágrimas que emanam do azul celeste do que o homem ousou chamar de céu. Me deixa ter asas para nadar como quem compõe notas ao ar. Me deixa, me deixa ser febril, em doce febre de amar o que não se sabe que ama... em sutil cólera de sensibilidade poética. Apenas à minha febre, desejo que morra um dia e que a terra devore seus graus elevados a mil que escorrem em minha pele.