sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O espetáculo
Dry Neres




-Acrescentarás versos de ilusionismo aos olhos dos que desejarem atravessar tua alma. É o que a incessante voz do meu inconsciente talvez mais sábio, tem me dito desde tempos imemoriais. No meu palco... danço, escrevo, vejo, minto, canto... espero! Espero que um dia eu possa saber descer as escadas sem ficar tonta, confusa, desequilibrada. Eu ensaio todos os dias na frente do mesmo espelho a minha verdadeira desconstrução. Eu escrevo uma história que nunca será possível ser vivida. Acrescento pessoas ao meu âmbito sentimental e, sobretudo, sinto falta singular de cada uma quando as nuvens chamam-nas para algum outro lugar longe do alcance dos meus pensamentos. A cada espetáculo, vejo sorrisos e alfinetes arremessados em minha face. Às vezes, penso até ser uma espécie mais moderna de acupuntura adverbial. Sei que os julgamentos são muitos. E quanto aos meus julgamentos sobre meus atos, posso escrever um livro. A minha ingratidão junto aos elementos desse mundo é tamanha, que volta e meia me esqueço de alimentar os pássaros que pousam nos meus olhos, esqueço-me de deixar cair doces para as formigas, esqueço que a existência é um breve pulsar, um instante mágico de bater de asas e de sorrisos de criança.
Lembro-me com clareza dos meus primeiros teatros... quando menor, gostava de fingir que sabia compreender todo o mundo e fingir que a distância entre os vários mundos era mínima. Quanta nostalgia, quanta saudade sinto daqueles momentos inatingíveis e mais sublimes! Hoje, só sei contar degrau, enquanto na verdade deveria esquecê-los. Nesse espetáculo, posso ser quem eu quiser... ave, vento, céu ou solidão. O problema vai ser depois de algum tempo, reconhecer minha face nas águas limpas de alguma nascente que hei de encontrar pelos caminhos de Dubai ou pela Pasárgada. O difícil mesmo é saber fazer alguém sorrir, quando seu desejo é dizer: - Me abraça. Só me deixa chorar! E os meus fingimentos continuam. Eu não sinto dor, mas sinto necessidade exorbitante e um tanto transitória de cantar que sinto. Na verdade, minha alma repousa nos sentimentos bons e não saber onde estou me dá a sensação de linha solta ao vento. Eu quero voltar. Mas pra onde?
E se não puder ser mais você... seja assim mesmo!

6 comentários:

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Nossa! Que texto imprecionante. Amei cada palavra escrita aqui.
Tenha um bom final de semana
beijos

Poeta Mauro Rocha disse...

O espetáculo é ler você.Que texto!!
Um abraço e ótimo fim de semana.

ANA DINIZ disse...

Minha linda.

Como já dizia Sócrates, e isso serve ao ser vivente que se põe no caminho da busca interior, "Conhece-te a ti mesmo". Sim, vc é o vento, os pássaros, as formigas, as nascentes, e toda natureza intrínseca na profunda amplitude do seu ser. Esta busca de si própria pode revelar muitas facetas, personas e caminhos de ser... Esta é a alma, uma fonte inesgotável de diversidade e de riquezas. Um tesouro, uma dádiva, um recanto, mil lugares, mil pessoas, heterônimos, sexos, sexualidade, pensamentos, fantasias, memórias, impressões, vivências, conteúdo.

Ah, é tão bom estar aqui e aprender com vc.


Bjos.

Ana

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Fantástico! Aplausos emocionados e pedidos de bis!
Você é meu espetáculo!
Que seja...
beijo e luz

ANA DINIZ disse...

Oi, Dry!

Postei um tormento em forma de poema.


Beijos.

Ana

Vivian disse...

...a partir destas palavras nunca mais serás a mesma, quando sabemos
fizestes um parto de suas emoções,
deixando-as jogadas ao vento que adentra todas as 'janelas'...

parabéns...

bjus