sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Decifra-me
Dry Neres




COMO PAPIRO PRESO NA GARRAFA, ME FAÇO. Vou encolhida para que ainda me sobre espaço. Vou de meias porque a noite pode fazer frio intenso. Vou de carona, porque perdi identidade. Como astronauta marinho, me deixo. Vou de calças longas, não quero me molhar. Vou com as mãos nos joelhos, preciso pensar. Com tampa, proteção, sentada... sigo a minha viagem. Preciso de atenção, preciso só de coragem. Pensei em deixar isso como história em quadrinhos. Descobri tristemente, que não caibo nas páginas grandes dos livros. Sou personagem que invento a cada hora, mas sobretudo, sou humana só de passagem. Tenho várias caras, vários mitos, vários gritos. Eu não caibo nas literaturas. Sou personagem dos livros de Hamlet, sou o vento que perpassa teu corpo cintilante, fugaz.


COMO PAPIRO PRESO NA GARRAFA, ME FAÇO. Quisera descobrir os mistérios que rondam minha breve existência. Quisera saber do aqui, do além. Os remédios não me dão mais alívio. As músicas parecem sugar-me para um túnel, desse mar. Como astronauta marinho, me protejo. Quem sabe nas ilhas do Alentejo, quem sabe fico nas águas a afundar.
Penso que não sei nada sobre mim. Digo que meus auto-retratos são fiéis. Como medir fidelidade em mãos que escrevem dores que não se sente? Como medir fidelidade em mãos que deixam de escrever seus reais desamores, dissabores? Eu me mostro demais. Sou teu livro vivo, a dona dos teus "ais"! E de suspiros ofegantes morre meu coração, porque nessa vida-passagem, pareço não me encontrar. Caminhos confusos, respostas que vem e vão... em vão!

COMO PAPIRO PRESO NA GARRAFA, ME FAÇO. Quem sabe nas ondas do mar, eu veja minha sorte. Quem sabe eu vá habitar o mesmo lugar onde mora a Dona Morte. Talvez a melancolia seja só esforço para parecer triste. Na verdade, sorrio por dentro. Tenho a alma por vezes, exorbitante. Sei que nessa garrafa que vagueia, encontrarei trilha, roupagem. Quero que os ventos soprem cada vez mais pra longe. É no inabitável que me surgem as mais belas canções. É no inabitável que minha voz ecoa mais fortemente em mim. Consigo ouvir as fibras que se movimentam em meus músculos. Consigo ouvir a voz branda que emana do diálogo que faço com meu Eu... na dialética. Me decifre. Ou não me decifre. Me transforme em quadro. Eis que o meu mistério é
estar assim... pairando entre o que não sei, entre o que você acha que sabe de mim... entre o meu verdadeiro Eu. Decifra-me, não.

6 comentários:

Anderson Meireles disse...

Queria mesmo transformar tais palavras, tal pessoa em quadro...
Concordo que é no inabitável que se revela grandes coisas...
No inabitável, onde moram essas palavras,
mora você!
Abraço!

Paradoxos disse...

Mora-me. Decifra-me.
Leio os teus textos e parece que estou a ver um filme.Ê optima esta sensação poematográfica em palavras imagéticas - as tuas!!

Cada vez mais sóbria e exemplar!!

Minha inspirada!!

Menina do Rio disse...

Não vou justificar minha ausência, mesmo pq não caberia.
Adoraria ter estado por aqui, mesmo pq meu blog fez dois anos e eu nem estava aqui pra comemorar.
Quero apenas deixar meu pedido de desculpas, agradecer pelas visitas, pelo carinho, por tantos comentários e pela preocupação.
Mesmo que eu quisesse e me desdobrasse, não daria para fazer isso individualmente e terá que ser aos poucos.
Hoje quero apenas deixar um beijo e dizer que vou lendo-vos na medida do possivel.
Mil desculpas.
Estou de volta!
Um beijo imenso!

Poeta Mauro Rocha disse...

Oh! Bela Esfinge, se não te decifro, morro.Mas antes vou saboreae palavras tão belas...

Um abraço!!

ANA DINIZ disse...

Neste mar de introspecção, perco-me, encontro-me. Sinto um prazer imenso em ler-te. Vou te contar que assim só com Clarice.


Beijos,

Ana.

Poemar disse...

Dry, em teu mar de reflexões e questionamentos estive a navegar e, minha querida, somos isto: histórias entrelaçadas, caminhos cruzados, novelas com inúmeros e indefinidos capítulos.
O ser humano é isto: uma complexidade infinda!

*Beijos de mar***!