terça-feira, 7 de outubro de 2008

Do globo ocular
Dry Neres



"Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que vendo, não vêem"! - Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago.

Penso nos vultos e nas mãos que não sabiam onde tocar. Penso no sorriso teu que a memória conseguiu capturar. Não preciso do seu nome, sua descrição, nem de foto sua. Eu te conheço sem ao menos ter contemplado tua face. Eu te reconheço pelo perfume que exala da alma tua. Passei uns dias preso ao véu do entendimento profundo e percebi que a minha visão é tão superficial, rasa. Caminhei descalça sobre os escombros da crueldade humana, sobre a falta de condescendência dos seres dessa terra. E nos gritos das mulheres, percebia o choro das crianças. Os instintos se afloraram e o Naturalismo então ressurgiu. O lado animalesco do homem nunca me falou tão alto. Não se importam em perder suas intimidades, não se importam em conviver com seus dejetos, não se comovem com a fome do homem que mora ao seu lado. Na verdade entendem bem o sentido dos verbos importar e comover, todavia suas forças parecem estar num andar de cima onde não alcançam. Fingem esquecer-se de tudo que um dia aprenderam como certo. A busca pela humanização grita. E pra isso, é preciso mais que olhar. Penso que nos olhos é o lugar onde habita a alma dos homens. Mas e se perdemos os olhos? E se a cegueira nos tomar? A alma terá de se alojar em outro órgão, em outra casa. Somos todos cegos. Não reparamos o sinal avermelhado, nem as faixas que mais parecem zebras pintadas na capa negra do asfalto. Somos todos cegos. O sol nos anuncia todos os dias a renovação e só conseguimos visualizar na chuva, um vão. E só conseguimos identificar alguém pela cor, ou raça, alguma definição. Somos todos cegos... de alma, de mãos que insistem em tocar só o que se vê, de vozes que insistem em vociferar o que é preferível sentir, de cores que não aprendemos a definir. Somos todos cegos que pensam que vêem, mas que a calçada continua sendo um obstáculo, um muro. Queria dizer mais, mas a cegueira me tomou o falar.

8 comentários:

Vulcanicos disse...

Ensaio sobre a cegueira é um dos melhores livros que eu já li em toda minha vida!
Saramago é sempre genial! E nada mais pode-se esperar de quem admira sua obra... Assim como você!

Grandei beijo!

Anderson Meireles disse...

"O sol nos anuncia todos os dias a renovação e só conseguimos visualizar na chuva, um vão."

Estava precisando de palavras como essa..
a humanidade tem mesmo, feito se desumanizar.
Essa semana soltei uma frase pequena:_ Não tenho medo de nada!
Me equivoquei. Tenho medo da desumanização que está em mim também,
belíssimo texto,
abraço!

Poeta Mauro Rocha disse...

Saramago é ótimo!!E seu texto também!!

Um abraço!!!

Ana Diniz disse...

Refresca-nos a alma.
Tudo isso sinto em mim.
Não "ser cego" é um desafio para toda a humanidade.

Para quem já vê, este texto é um conforto. Cresce o clã do Amor: não estamos sozinhos.


Beijos, querida.

Ana

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

...E acho que posso estar cega!
Recebi hoje pela manhã lindas declarações de amor e um pedido de casamento do meu namorado lá no meu blog.Estou feliz demais, mas penso ;estarei cega?
Apreça por lá se tiver tempo é claro. beijos

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Profundo!
Também acreditava que nos olhos residia a alma... hoje acredito que ela reside no coração, no olfato, no toque, até no perceber à distância...
Como disse no post que fiz para a Layla, eu ainda acredito, já não somos todos cegos... Basta ler seu texto!
Você enxerga longe...
Um grande beijo e luz, muita luz para dissipar a escuridão

Paradoxos disse...

"Queria dizer mais, mas a cegueira me tomou o falar"

que esta cegueira verbal não te segue em silêncio nem te cegue a boca!!

como tu - sempre - belo - belo depoimento poético!


estou cego de ti - em palavra :-)

Cristiana Fonseca disse...

Saramago, fabuloso.
Tua escita tb.
Belo fim de semana
Beijos,
Cris