sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Efêmero
Dry Neres



As folhas secas que passam, voam, entoam... cantos, risos, vestes... celestes! ...ao vento! Uma vez, minhas mãos viram uma lágrima caída num travesseiro; ela parecia ter vida própria! Se movia de acordo com as pálpebras que se tocavam lentamente, sem ar, asfixiadas e em sal. Minhas mãos viram também nascer uma rosa numa manhã ensolarada e quando pela tarde as buscava para regar, encontrou-se apenas uma pétala que dançava ao ar. Várias vezes, sorrisos me procuraram após noites longas, de choros longos, de dores vivas. Quantos lábios beijaram meu coração e quantos se foram, perdidos, sem terem me conhecido. A morte e a vida se entrelaçam a todo instante. Elas têm um ritual fora do comum. Ambas vêm quando a gente menos espera. Eu não sei falar bem dessa passagem em que a alma desencontra o corpo; nunca toquei-a com tanta precisão. Todavia, já vi muita gente morrendo ao passo que vive e vivendo enquanto quisera morrer. Efêmero é um copo d'água dos que bebem sem sede, ou o Rio Ugab na África do Sul que não permite que as crianças se banhem nas suas águas, ou a menina que brinca de fazer bolhas de sabão enquanto anda de bicicleta, sem as mãos.

Oh, mundo de sinestesia amplificada! O que é que você deixa passar? ... sua respiração? Sua história, razão? O que passa também fica, se congela, permeia... os poros da pele, os poros... dos olhos seccionados, das mãos que querem fugir do corpo e abraçar os sexos; das vidas breves e dos momentos eternos que as almas silenciam e formam impérios onde as paredes desenham o amor; onde as pedras ao chão desenham a dor que finge que finda. Construímos assim a humanidade! Homens fortes, de coração-fraco... velhos que tossem e não encontram repouso-abraço, mulheres que amam amar, mas não sabem que o amor grita no escuro-silêncio-rápido. As cartas de amor que os pombos levam às caixinhas do correio, que ninguém lê. Dos livros empoeirados que ficam na janela debruçados esperando um beijo do pássaro que pousa rápido, bebe e voa ligeiro: o beija-livro... E de que tudo passa, passa-rápido como caminha breve a sociedade em uma perna só. Onde o que é condenável se traduz em apenas, desconhecido. Ninguém anda contando quantas formigas-doces, passaram por nós num dia cheio, mas é fácil contar pra todo mundo quantos são nossos desgostos e afagos não recebidos. Ninguém conta quantas vezes não estendeu a mão por onde passou nas galerias, onde os mais desfavorecidos lhe pediam olhos amigos, mas se conta tão rápido o cardápio gordo do passeio no shopping das pessoas felizes que não são de verdade.

As águas que lavam meus cabelos já se foram, passaram. Essas linhas já são velhas, passaram. Este rosto não cabe mais em mim, porque já é risonho, passou. A dor não dói tão devagar, porque é forte, não passa. O amor já é mais amigo, porque se transforma e se eterniza. Não importa o que passa... O que vai determinar a construção do seu império de riquezas inumeráveis (as que não precisam ser tocadas) é somente o que fica. Fique e demore... dentro, fora, entre!

9 comentários:

Anderson Meireles disse...

"O que passa também fica, se congela, permeia..."
Putz, essas palavras me vieram como um tapa-depertador.
Nunca mais deixarei passar formigas-doces sem contá-las...
Maravilhoso,
um abraço!

Veneno Antimonotonia disse...

Meu deus!

Anderson Meireles disse...

Acordei pensando; gosto da palavra IMPÉRIO quando ela sai de você.
Talvez não saiba, mas você possui um.
As palavras que te rodeiam formam um grande reino onde você reina.
Elas te cercam e te protegem.
Desculpe, precisava dizer isso,
um abraço!

Eu caçador de mim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eu caçador de mim disse...

O porto me fascina...mas...o novo me assusta...estou entre o Fascínio e o Pensamento...rsrs

Eu caçador de mim disse...

Gosto do que se move, do que não é permanente...mas...é único...tuas palavras me beijam...Dry Neres

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Gostei do amor que se tgransforma e eterniza... é assim mesmo... porque amor que é amor não acaba nunca, é eterno. transcende. vai junto com a alma. creio eu, que da vida sei ainda pouco, e da morte vou aprendendo aos poucos,
beijo e luz

Paradoxos disse...

estás cada vez a escrever melhor, muito melhor mesmo!!

beijão

maduras palavras, com sentido e consetidas!

Veneno Antimonotonia disse...

é um espanto,um espanto inefável, admirado e fascinado...

Um beijo.