quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Viagem - ao que molha
Dry Neres



Ah, eu queria o colo de um rio que desce chorando amarelo e branco... E os sóis que cantam formando desenho em nuvem... E mergulhar meus erros tolos nas correntezas que logo batem numa rocha quente. Bagdá talvez, Salvador, Poá ou Ouro Preto... tanto faz. Eu queria mesmo, repousar em outras camas, beijar outros livros vivos de história, matemática, alemão. Porque entre a Nau e o Porto tem um longo caminho de incertezas e escolhas despercebidas. Porque entre a Nau e o Porto existe o maior inimigo do homem. Porque entre a Nau e o Porto, não existe... existe o amor que se esconde entre os postes e esquinas e mesas de bar. O encontro que meus dedos tocaram uma vez, anseia por ser bebido vagarosamente, dia após dia, com você. Eu fujo do que é claro, entro na minha caixa particular de Pandora, e encontro lá o misticismo que minha alma pede para viver. Mas na verdade o que eu queria era achar uma ponte que firmasse caminho doce para que chegássemos iguais, ao que molha. Ao que molha nossa boca, nosso coração, nossos pés que se balançam bem em cima do ar; a chuva que não precisa cair pra dizer que chegou, nem as pedras precisam se mover pra você dizer que sim. É um lindo sonho-de-sonho que não acaba nunca. A menina toca o chão pela manhã que ainda é noite e pensa: - Não dá mais pra mim! ...Quando pela tarde que é quase noite chega, ela diz: - Eu preciso ficar mais um pouco!

Os porquês que tangem a imaginação incomunicável do poeta com a rosa, estão escondidos entre as paredes fixas que foram imortalizadas, santificadas. Está impregnado em minha pele e em cada copo d'água que minha garganta molha, se molha, te beija. Hiperbolicamente falando, sei que é imenso, maior que tudo, maior que os céus que cobrem nossos corpos enxutos e frios e rígidos, o que sinto e quero sentir. O Porto talvez mude de roupa, a Nau talvez vá para Xangai... quem sabe eu desencontre e me despeça desse amor em Duruelo de la Sierra ou na Estação da Luz que acorda em São Paulo. Quem sabe na parede de algum museu daquele, eu encontre seu rosto criptografado em línguas ilegíveis... não importa! Porque eu sei escutar seu canto até na língua das sereias, até na língua sua... muda. Eu me casaria em todas as igrejas de Portugal, mil vezes... na Capela das Almas, ou na Igreja dos Grilos, na Capela dos Alfaiates ou de Fradelos. Ao que molha... minha sede... eu iria! Iria a Funchal ou Coimbra, iria de Trindade a Brasília. No Congresso, nas ruinas gregas de areias que nem o Saara tem. Ao que molha... eu não iria! ...já estou! Mas a Nau não pousou da viagem... vou me molhando então, de Cecília à Florbela. Até o dia em que a rosa desejar se molhar e desça da sua casca fugidia... espero que o Porto não tenha mudado de roupa, nem ido a Xangrila, ou em Pernambuco. Ou ao que realmente, molha! ... mata a sede.

7 comentários:

Cecília Bergamasque disse...

A sua escrita é viva!!!!!
vc não tem medo de se mostrar.....
Vc promove um imaginário além de vc que alcança outros corpos.... que alcançou minha alma!!!!
Parabéns poeta....
Um bj doce!!!!

Cecília Bergamasque.

Anderson Meireles disse...

Para mim, entre a Nau e o Porto existe uma menininha, e dentro dela um universo infinito, onde o que molha mata a sede
Um abraço!

Poeta Mauro Rocha disse...

"vou me molhando então, de Cecília à Florbela." Que banho você terá, pura poesia, ótimo texto!!

◘◘◘ disse...

"Eu preciso ficar mais um pouco..."

Peciso vir mais, ficar mais... Matar a sede com as suas palavras!

Genial!

Beijos!

◘◘◘ disse...

Para mim também andou difícil escrever esses tempos... Por vários motivos!!!!
Monografia é fogo, né?!?!?!!
Já passei por isso... hehe
Vou me esforçar em entrar mais nos nossos blogs... hehe
Um grande beijo e um excelente fim de semana!

AnaLua disse...

Também tenho minha caixa de Pandora particular. Seu texto me lembrou uma poesia da Cecília Meireles, em que ela se compara a uma pequena rosa, que em suas delicadas pétalas suporta todo o peso do orvalho.

Lendo teu perfil descobri que temos algumas coisas em comum. 1) Brasília, é a minha cidade, onde morei muito tempo e é o lugar que chamo de casa. 2) Literatura. Já tenho curso superior, mas estou pensando seriamente em fazer letras por puro deleite. 3) Trabalhamos no mesmo órgão. Sou lotada em Curitiba.

Quem sabe já nos conhecemos?

Abraço!

Cadinho RoCo disse...

Para saber do amanhã, só amanhã.
Cadinho RoCo