Recontando:
Da vida - Dry Neres

Quando eu era pequena, sonhava em ser professora e em poder exercer a linda arte de ensinar! Agora, que mais velha me faço, estou prestes a realizar um sonho de menina. Mas agora é diferente: descobri que vou aprender ao invés de ensinar! Me demorei numa leitura que eu deveria ter feito a algum tempo atrás. Eu teria aprendido a caçar pipas antes. Teria aprendido a importância de se exercer uma coisa chamada, coragem. Da vida que se vive, recontada... tudo passa muito rápido. É a velha efemeridade dos fatos que o tempo me ensinou ser o regente das vidas dos seres nesse mundo. Do sonho que se pega, pouco se fica; das pipas que no céu são "entoadas", só se escutam algumas depois de algum tempo.
Eu não sentia a dor assim de forma tão intensa. Eu não chorava com lágrimas tão salgadas. Eu não tinha tanto medo do que me espera e nem vontade de te arrancar soluços com minhas linhas. Eu não tinha a escrita tão carregada de teias; numa dessas, pode estar você! (...quando mais moça, brincava de inventar histórias, sem escrevê-las. Falando sozinha, com o vento... entre dinossauros e mundos fantásticos, eu não sabia traduzir em letras os meus devaneios que pareciam tão poéticos!) ... Pelos corações por onde passei, soube deixar um sorriso de despedida imergido em dor; em cada corpo que morei, soube deixar saudade do que não vivi.
Hoje, tudo o que eu queria era ser uma viajante. Hoje, tudo o que sou... sou uma fazedora de ficções reais... realidades simples, de pensamentos soltos e confusos que se fazem árabes, irlandeses ou xiitas se você me pedir. De tudo que sei, sei pouco. Do muito que não me fora permitido conhecer, sei bastante. Quereria saber tocar as flores antes de beijá-las. Quereria saber fotografá-las antes de arrancá-las. Quereria mais: saber esquecê-las antes mesmo de tê-las inventado. Eu só escrevo, porque não aprendi a fazer nada disso! - "Seria mais útil medicina", todos falam. Mas com minhas linhas, se te arranco soluços ou espanto, me contento. Mentira! Se me contentasse, pararia... Tudo me distrai e chama a atenção. Da estrela única do céu fazendo companhia à lua em formato de concha, até a menina que brinca de ser mulher e dirige as suas próprias escolhas.
Direção! Da vida que se vive, recontada... eu só espero poder seguir o que me diz meu coração. Azar o meu que eu não o ensinei a ler Cecília: "Ou isto, ou aquilo"... ele deixaria de ser faminto e de me pedir pão e vinho ao mesmo tempo; pois um sucumbe ao prazer do outro e não fazem boa junção. Dos pares ímpares da vida que se vive, recontada... sou um coringa na mão do bom jogador. A jogada maior, espero que o façam... e que se lembrem do meu desejo primeiro! Que eu não me perca da minha coragem-ausente, e nem mesmo do meu sorriso que desfila sobre o palco de dor que alguns fingem conhecer... e que da vida que se vive, recontada... essas linhas minhas, possam fazer parte de você.
Um barquinho na água, a menina... que virou mulher. Não tem remo, nem espada. A imagem sua, se reflete no espelho que não é de ninguém. A menina levada, de fala ousada e que ainda brinca de bem-me-quer nas cifras que forma com a língua dos dedos a escrever. O barquinho, a água, o banco do remo que não se tem. Eu só quero que: ele leve as linhas pelos sete mares. Quem sabe um dia, alguém me chamaria de poeta... quando a loucura fosse considerada sã e quando os olhos aprendessem a falar.