Dry Neres

Sensações não seguem regras cartesianas, não são concatenadas.
'Please, don't wake me, no, don't shake me. Leave me where I am - I'm only sleeping'.
Foi como escutar Radiohead numa tarde quente, de muita gente, com sorrisos nulos. Num campo minado onde o X imperceptível a esses olhos terrenos delimita quem será o próximo a habitar a mansão dos doentes de espírito... Ou melhor, os ausentes de espírito, visto que espírito aquele deixou de morar no corpo este. Como se conformar? Como entender que a jornada de vida tem fim? Como aceitar que a figura da morte com seu cajado impiedoso bate à porta nossa, da família nossa? Pensei que morna seria eu ao me deparar com cena aquela, mas vi-me desconsolada, vi-me amedrontada com essas consonâncias contraditórias.
Vai ser impossível não deixar uma lágrima cantar quando naquele antigo local de morar dela, meus pés se calcarem e meus olhos visualizarem o seu local de repouso e observação da gente. Vai ser impossível não lembrar e não sentir remorso da forma despercebida que temos, Humanos, em esquecer-nos de dar a atenção devida aos que compõem nosso amor. E é inevitável pensar que poderíamos ter feito mais, que poderíamos ter amado mais.
Nada é definitivo. Nem a morte é o nosso estado final. Ainda existe mais depois dela. É nela que a grande jornada se inicia. Mas infelizmente não conseguimos conjugar o verbo conformar... Por enquanto não!
'No alarms and no Surprises'... Diz-nos como entender?
*Que as nuvens a abrace, minha querida Bisa... Que as rosas que tanto apreciava possam beijar sua face tão cansada. Faça das nuvens seu algodão-doce e dance com o vento agora que pode, agora que seu corpo já é tão leve. Amamos-te!
Penso que é razão de ser e existir, o tal verbo amar.
Gosto do seu riso infantil, amor meu. Aprecio com delicadeza e num grau de observação absurdo o passar dos dedos teus que se entrelaçam em meus cabelos ondulados. Finjo que durmo enquanto te sinto passear em minha face com seus lábios em ato de acariciar e fazer dormir. Amo a leveza com que você conduz suas palavras em desatino ao meu aparelho de observar letras. Gosto da nossa intensidade incompreensível aos olhos de alguns e nosso carinho visto como loucura aos olhos de outros. Guardo de forma ímpar os seus suspiros e as canções que ousas balbuciar nos nossos atos românticos. E entre as flores está escondido o nosso cuidado. E cada pétala representa uma noite em que seu corpo habitou o meu na mais suave brisa dos tempos em que o vento uivava na janela. Gosto da confusão que é os seus cabelos nos meus. Amo recitar poemas com rosas vermelhas em punho, só pra te convencer que você é minha religião. Só pra te convencer que seus lábios ainda são para mim com oásis no desesto. E que seu colo ainda é o lugar mais seguro para eu morar com meus devaneios. É doce, tão doce sentir teu cheiro suave na minha camisa. É doce, tão doce, brincar de beijar minha pele, por onde seus lábios passearam.
És canção. És meu amor. É bom te ter completa, aqui na minha vida. Eu amo você!
Pingam algumas gotas nesse solo quente que me faço. Permeia alguma água que escorre por esse coração. Desenlaça uma alma de um corpo. Envolve os cactos com esses versos soltos. Penso que sou o próprio deserto personificado. Deserto não é sempre vazio. Deserto tem sol, tem gente, tem céu, tem mito, miragem, canção. Desertos têm príncipes, galáxias, nadas. Penso que nossa liberdade é tão limitada, encarcerada. As gentes nesse mundo são tão estereotipadas. Se você saí um pouquinho da linha do que ensinaram nas gramáticas, literaturas, constituição, você é considerado estranho. Se você não concorda com o que as placas dizem, com o que os dirigentes das massas pregam, você é considerado rebelde. Se você ama, simplesmente ama e seu amor não pode ser fotografado e seu amor não pode de mãos dadas com você caminhar pelas calçadas... Você é considerado desumano, anormal. Você se enquadra no padrão?
Sou deserto quando penso na falta de amor, calor humano. Sou deserto quando vejo homens vestidos de relógios, calendários, monopólio. Não se pergunta mais o nome das gentes viventes. Indaga-se acerca das contas bancárias, dos títulos dos livros, dos vinhos que se degusta. É uma contradição, brincar de enjaular palavras bonitas na garganta, brincar de ser humano que ri, sonhar com a crença de dias melhores. É contradição maior ainda ser poeta e usar computador, ver televisão, embarcar no avião. Peco quando tento não ser deserto meu. Peco em duplicidade quando finjo ser eterno o tocar de mãos, o beijar dos lábios, o abrir dos olhos. A eternidade é utopia dos que ainda não cegaram. Ceguei!
Dói-me avassaladoramente ver que os anos se passam, os carros aumentam, mais bebês nascem, muitos velhos morrem, e penso no caos que é pensar. E penso no caos dos desertos milhares muitos vários que somos. Que me perdoe a sintaxe gramatical pela minha ignorância literária. Que me perdoem os lexicos, silábas, frases, pois minhas mãos são desertos aguados, só escrevem. Não penso para escrever. Não é necessário pensar. Eu sinto que as letras vão me tragando, vão me fazendo cócegas e preciso rápido, tão rápido e demasiadamente largá-las aqui. As sílabas vão fazendo eco nesse deserto aguado e deixam em estado de transe espacial, com os lábios secos como se eu as pronunciasse a exércitos de sessenta mil homens cada. Vejo-me em ato de parir, de morrer nessas linhas que terão como túmulo essa lápide de texto acerca do deserto aqui nesse lugar de abrigar meus besteiróis que eu ouso chamar de prosa poética. Respiro pouco aqui... Estou fotografando as paisagens que formo no meu singular pluridesertificado estado estático do pensar e fazer. E nada faz sentido. As palavras não se acham, não querem se abraçar e como ter um câncer sem vírgula sem possibilidade dessa cura que é viver e achar que se vive bem quando o caos se instaura dentro e fora de você e não há literatura nem canção nem verso de shakespeare que te prove que te faça se assumir como ser tem veias e sangue que corre pelo corpo que já se julga ser morto em estado de vivência e eu tento não sentar ali naquelas pedras e bancos de areia para não me sentir tão cansada e não espero que alguma ave me arranque desse estado sem líquido no deserto e não aceito que as vírgulas me arranquem dessa construção do meu respirar ofegante e dessa dor e felicidade que é digitar quase arrancando as letras desse aparelho que inventaram para facilitar a rapidez do gozo veloz das palavras que me tomam e me canso e paro.