quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Fingimento poético
Dry Neres


É como procurar poesia em rio que escorre veloz. É como ler música em paisagem rápida dentro do carro que sou. Talvez fosse como beijar rosas num mar de espinhos. Meus lábios quiseram vomitar todos os seus beijos. Te devolver cada centímetro do teu corpo que habitou o meu. Habitou em convulsão de pensamentos que não sabiam se concentrar nos meus. Estava longe, lá nos olhos que moraram em seu edifício interior, por longa data. Dois verbos guerrearam dentro do meu ser e ecoaram gritos, rangidos. Dormente! - Gostar e Amar. O meu verbo que não é de ninguém tentou te encantar, dançou frente ao seu sorriso, se enfeitou, vestiu roupas novas, aprendeu novas canções, se desfez de corpos amigos. O seu verbo, até que gostou, também se encantou, todavia foi como gelo ácido, como pedra intransponível, como doce que hoje amarga ao fundo do meu ego. Foi como dois pólos, o tempo inteiro. Enquanto parte tua me amava. Parte tua caminhava lá no teu desejo banido de amor. Eu te inventei, perfumei, amei e te vi partir. Do que me adianta o seu gostar se o meu querer é teu amor primeiro. Não posso mais ser válvula de escape às nossas necessidades. Não me deixarei, portanto, diminuir-me, desfazer-me da essência tão doce da que sou. Sou por demais, intensa! Sou por demais, visceral! E deixarei que morra em mim toda a poesia que me aproxima e me afasta dos meus fantasmas.

Teus olhos não sabem enganar e sempre que eu os buscava via esconderijo, via medo de machucar. Quisera que tivessem sido treinados para transparecer e não camuflar. Ainda assim, me arrisquei, quis ser oftalmologista, futurista... Interpretar suas expressões. Me formei em psicologia e toda terapia que quisera usar contigo, vi que falhou. Invertemos papéis: da mulher que sou, fui menina contigo. Da menina que és, foi mulher e nos levou da forma como quis. Eu permiti! Me formei então na arte da poesia pra te escrever linhas que ninguém nunca alcançou. Fui poeta de ruas vazias, camas frias, noites de amor. Fui confidente dos meus versos que te arrancavam suspiros, elevavam seu ego de Narciso e o que era doce se acabou. Contei demais do coração pra você. Não me devolva nossas músicas, nem nossas cartas, nossas coisas. Guarda tudo com você. Meus gemidos, nossos beijos, seu cobertor que nos aquecia naquelas noites frias em que eu pensava ser amor. Guarda com você meus anéis, meu relógio que parou. Deixa contigo meu abraço, o primeiro beijo. Porque eu só preciso saber que acabou.

4 comentários:

Anderson Meireles disse...

...É como um cego que tateando, toca o rabo de um elefante e vive o resto da vida achando que elefantes são parecidos com cordas...
(filosofei, foi inevitável)
Como sempre, belíssimo,
Abraço!

ParadoXos disse...

"E deixarei que morra em mim toda a poesia que me aproxima e me afasta dos meus fantasmas"

nada mais profundo que esta profundidade tão tua - todo o texto está poderoso é claro mas esta frase me fez derreter!!
pela sugestão e beleza!!
beijão querida amiga, minha!

Poeta Mauro Rocha disse...

Acabar tudo é começar tudo.A poesia que traduz o fel é a mesma que delicia teu mel."A dor é inevitável,o sofrimento é opcional"

BJS

pensador made in vaso disse...

genial seu texto. vc mostrou em poesia o q todos sentem, o sentimento confuso e a desilusão.
abraços libertários