- Dry Neres

Um enigma. Uma interrogação. Um país composto por uma população de afroamerindios. Disseram que me descobriram, colocaram uma mordaça em minha boca. Derrubaram a minha casa e colocaram no lugar um altar que não me contempla. Inventaram pra mim um deus chamado submissão. E me pediram que eu o alimentasse com mel e com o pão dos meus filhos. Começou comigo a literatura dos marginalizados. Tomaram minha filha num casamento para fins de procriação e em troca me trouxeram umas jóias de cobre. Cobre era a cor daquelas mãos sujas sugando o ouro limpo que tinha nesse solo.
Cortaram minhas árvores e em homenagem ao grande feito, deram o nome dela à minha Terra. Pintaram meu mar com seus navios e homens maus, que deceparam a cabeça de muitos irmãos meus, seus. Mas eles buscavam o progresso; eram incansáveis. E para isso resolveram “pedir” para que trabalhássemos para eles. Lutamos! Bravamente! Resolveram chamar e fazer o mesmo “pedido” a uns “vizinhos” nossos que tiveram promessas de irem ao paraíso. Realmente eu moro num paraíso, mas que se fez inferno para muitos de nós. Levantaram espada de independência, quiseram americanizar mais ainda o Brasil dizendo: Agora, vocês são os Estados Unidos do Brasil!
Escreveram com penas de escrita leve a abolição, queimaram umas bruxas revolucionárias de esquerda, com a ditadura militar e um catolicismo profano. Falam em sociedade avançada do capitalismo, mas a cor que corre em nossas veias, continua sendo o vermelho. Construíram uns Ministérios e até um Cristo para dizer que somos populares. Por trás de todo esse lado escuro, temos a maior diversidade cultural desse planeta. Mulatas lindas que sambam, nosso feijão preto, o sertão, nossa música popular, arquitetura e patrimônio sem igual. Amazônia! Temos o melhor futebol do mundo, além de uma Língua fenomenal, a Brasileira. Sim, Brasileira e nem tanto mais Portuguesa! Falada de norte a sul em diferentes tons e sons.
A culinária se mistura com a literatura e juntas formam com as artes o que é esse espaço. Aqui faz frio no verão e calor no inverno. Meu Deus, que perfeição. Eu, que nem roupa tinha quando o pessoal chegou aqui pra me catequizar, hoje sou munido de notebook e celular. Esse povo nosso, sabe chorar quando ganha a copa e quando perde um filho dessa mãe de ventre largo. Sabe sorrir quando dança e quando alguém vê na TV um político mal intencionado. Certo dia, me perguntei o porquê de termos a maior concentração de água e o nascer do sol mais lindo desse mundo todo. A resposta foi ligeira em se apresentar: Porque choramos o tempo todo; porque sorrimos o tempo todo.
As lágrimas irrigam a terra “em que se plantando tudo dá”. E o sol esquenta nosso coração para que possamos ainda e sobretudo, ter esperança de dias melhores.