Dry Neres

Os quartos são alongados. Parecem querer abrigar os mundos. Bem iluminados, papéis de parede em poesia, um círculo desenhado ao chão. Em cada canto, uma miragem. No teto, lantejoulas arquetípicas desenham lágrimas que não molham. No ar, perfume de aconchego. No ar, algum resquício de dor. Voltando-se para o lado esquerdo, numa rotação corporal de 55º graus, vê-se a sala. O cômodo mais bonito. O cômodo mais arranjado. Não tem sofá, mas os tapetes cor de sangue desenham o mar que cobre a ausência tua. Os abajures representam as noites de leitura do corpo seu sobre os livros espalmados. A lareira me dá a impressão de sentir o pulsar do meu coração, a cada faísca que voa, que grita lá. Tenho dois quadros. Um meu. Um seu. Mas em todos, a pintura que vejo é a sua. Vejo o dedilhar da alma tua, caminhando pela sombra dos mesmos. Outro papel de parede e os dizeres: Mora-me, pertença-me, suga-me! O som é mais agitado por aqui. O som é mais rápido, intenso. As paredes costumam se movimentar com as ondulações das luzes que emanam do chão. O teto é sem cor. Abriga acomodações de uma osga cinegética (personagem que me habita os devaneios desde que conheci o Agualusa). Não tem cozinha. É bem pequeno por aqui. Não tem banheiro. Já não sou humano. Tampouco, naturalista. É bem pequeno por aqui. Abrigo outra casa. Mas essa só vive em meus sonhos. Das fotos que tiro, só eu vejo a casa perpendicular querendo me invadir. Só eu vejo as possibilidades de um enlace em que a ponta invada meu teto. Só nas fotografias de vento isso se faz real. Só pra mim. E quando desocupada me deixo, visualizo no espelho que ganhou lugar fora da casa, a imagem minha refletida naquela construção. Os cômodos, são minhas personalidades. Os móveis, pura imaginação. O que não foi citado... é a verdade acerca do meu coração.
Diz que quer abraçar o sol junto ao meu corpo. Ou simplesmente diz que quer me abraçar. Sua voz ao telefone me faz querer ultrapassar todos os fios, todos os elétrons da comunicação ofegante, da respiração cintilante. Diz que sim. Que eu te faço bem. Que eu sou a Dona dos teus "ais". Teu cais, teu porto, teu carro desgovernado. Sua pele ainda insiste em acariciar a minha. E as aves do céu me lembram teu pousar. E o teu canto não me sai da pele. Confesso! Já tentei lavá-lo com outras vozes, com outros cantos, com outros instrumentos. Confesso novamente... nada saiu de mim. Reclamo com o universo, grito com o tempo. Maldito seja o tempo! Maldita seja a ausência tua em mim. Que algo bendito te traga, para que minha alma assim repouse, durma em você. Que você durma em mim, por mais trezentos mil anos ou somente por um luar. Diga sim pra mim! Dê ordens à minha dor. Diga a ela que saia rapidamente, porque agora é o jeito teu que irá me invadir. Dê ordens ao meu coração. Diga a ele que te acompanhe. Que não se perca de você. Ordene que minha poesia seja tua. Reclame do meu assombro. Me beije quando eu menos esperar. Me queira quando de meias eu estiver. Briga com a distância que insiste em nos perturbar. Diz sim pra mim? Diz Sim... porque o meu Não está mais que preparado!
NÃO, não saia da minha vida nunca mais!
Parece que foi ontem. Ainda lembro-me do primeiro, VAZIO que saiu de mim há exatamente 176 dias. Desafiei a própria idéia que eu tinha de mim... e busquei máscaras ou MASK, como preferir. ELA me surgiu de forma inusitada. Minha produção poética cresceu exarcebadamente após tal aparição. Entre BUTTERFLY, descobri indecifráveis PLANETÁRIOS em que suas paredes traziam como escritura: SUGA-ME! Sinto cada fibra vibrar de forma peculiar quando me recordo do instante em que minhas mãos choraram ao escrever com tanta ternura "PEQUENA" CAROL. Deliciei-me ao som de Los Hermanos em sua CASA PRÉ-FABRICADA e soube através de LEMBRANÇAS trazer A DOR E O BEIJO DA ALMA que tiravam meu sono. Com o TOQUE SUAVE das tuas mãos, aprendi a ouvir o principal órgão do meu corpo: O CORAÇÃO. Entre tantas letras, entre tantas palavras e inquietações, marquei um ENCONTRO com MINH'ALMA. E a surpresa foi tanta que até Gabriel O Pensador, deu seus ares de graça com ASTRONAUTA. Em meio a tantos esses SENTIMENTOS MEUS, percebi sutilmente que A PALAVRA tomava conta de todo o meu ser. Que sem ela eu não saberia balbuciar no escuro, os escritos que me levariam a sorrir em forma de CARTA AOS MEUS AMIGOS.
Ganhei sabedoria incomensurável ao ver a GUERRA GELADA, que muitos Joãos, Marias, Gustavos, Patrícias, travam todos os dias... dentro... fora de si! SONHO com cada instante mágico em que a DESPEDIDA possa se reverter em retorno. E o que me inclina a SORRIR são os DEVANEIOS NUM GUARDANAPO que volta e meia me pego a escrever. Diariamente as MÁQUINAS me convidam para ser partícipe de toda sua configuração assustadora. Ousaram até me questionar, com toda sua frieza: AFINAL, OS ANJOS EXISTEM? Fiquei perplexa logo, com essa HOSTIL DIFERENÇA e resolvi me enclausurar no que edifiquei afim de me livrar de todas as loucuras do mundo moderno. Lá, na minha FÁBRICA DO PENSAMENTO, descobri que meu corpo pode ser mais leve, leve como pluma... com A DANÇA das ÁGUAS VIVAS Claricianas. E a cada segundo que me permitia ficar na minha fábrica, na nossa fábrica, pensava nas METADES minhas que haviam ficado perdidas durante todo o percurso. Minha FLOR DE LIS, me lembrou que A LÍNGUA É O QUE NOS UNE. Disse que eu não me preocupasse, porque afinal ainda existem ALMAS CÁLIDAS. Nessa viagem que me permito fazer, desafiando minha memória poética, desafiando os recôncavos dos mistérios das criações que exalam como perfume Celeste, digo-vos COM CARINHO que nada mais sou do que PEREGRINO, em busca do Amor, em busca do SER "ONOMATOPÁICO".
Não me importo com a lonjura ou extensão de cada palavra dessa. Sem elas, eu não seria o que sou hoje. Em JULHO, CODINOME EU!... Pude sentir o vento que sabia revolver sutilmente cada poro da pele minha, anunciando que DESCOBRI QUE ANJO TEM NOME: MEIRELES. Em cada descoberta... um susto! A PARTE FINAL DE CADA EXTREMIDADE SUPERIOR, me fez chegar à REFLEXÃO que nesse mundo as coisas tão mais lindas, são as que se repousam no INDIZÍVEL. EU ACHO que DURMO ALI NO MEIO -nos- RESPINGOS DO TEMPO, no LIVRO DO ESQUECIMENTO, nas RE-LEITURAS - que faço da - MEIRELES. E sei, aprendi a ler mais que o nome: E O NOME DELA É CECÍLIA!... Hoje digo com convicção! Ser ARQUITETO DE MIM MESMO, me fez perceber que posso ser maior, mais alto... que posso alçar vôos como gaivotas e reconhecer que O MUNDO PEDE PAZ.
Paz essa, que podemos encontrar, nos traduzindo... escrevendo! Em 146 CARACTERES, quis expressar todo o meu amor, toda a minha canção a um ser que despertou em mim os mais sublimes sentimentos. Segredo: Isso ainda mora aqui... Mas hoje descansa em paz, leve! Em cada ESCOLHA, soube dizer com mais firmeza que o CODINOME, AMOR deveria estar sempre assim, perto de onde podemos tocar IN MEMORIAN nos corações dos NA-MORADOS. O DESTINO, inerte à escolha, me ensinou que as coisas são ASSIM, fora do controle do que planejamos ser. Somos como VIAJANTES, perpassando as fronteiras do TEMPO, procurando LIBERDADE e O SILÊNCIO. Surpresa maior, foi descobrir meu tom MEMORIALISTA, que volta e meia, em meias voltas, me inclinava a ficar FORA DE ÓRBITA, AQUI, O QUÊ, ALÉM.
Além de mim, de Outrem. AS FLORES QUE BEIJAM MEU ROSTO em cada manhã, me trazem novamente o SILÊNCIO II que preciso encontrar meio às multidões. Porque esse me explica tudo DO QUE EU PRECISO SABER, e em constante VIAGEM, descubro de forma um tanto dolorida, que tudo é EFÊMERO. Sigo assim RECONTANDO DA VIDA e ELAS - A LUA E A MENINA voltam a me aparecer. Em outros rostos, em outros formatos, em outro alcance. Decidi que EU VOU TOCAR A LUA e pra isso, preciso me livrar DOS SOLDADOS QUE DANÇAM EM MIM e de alguns SENTIMENTOS QUE NASCEM. Preciso aprender mais com O MENINO DO PATINETE e deixar ser banhada pela TERRA ONDE CANTA MEU SABIÁ. Quero passar mais tardes com JOÃO, O PALHAÇO e sentir-me protegida assim, pelo BERÇO DO MEU FASCÍNIO. Quero FOTOGRAFAR minha inquietação com o ato de escrever e contar pra todos, que tenho UM SEGREDO, UMA RESPOSTA.
Com os SUSSURROS - DO VENTO, vejo-me À FLOR DA PELE EM CONFISSÕES DESORDENADAS. Vejo-me INCONTROLÁVEL, vejo que ainda não aprendi a beijar o que tanto preciso: O Amor! Na BATALHA NOSSA DE TODOS OS DIAS, continuo com o desejo de ser MAIOR, MAIS ALTO e CAMINHANDO, pretendo descobrir o MEU SEGREDO maior. Porque sim, eu sei que TALVEZ AINDA SEJA amor o que eu sinto por você, sei também que em meio a tantos VÔOS perpassando até pelo DIA EM QUE DEUS DERRUBOU A CAIXA DE TINTAS e a minha curiosidade em saber se é tudo isso FALSO OU VERDADEIRO, me perco, me deixo com a MINHA FEBRE, na DIALÉTICA DA DOR que quis enclausurar com a ausência tua. Mas sei que preciso de uma cama para dormir. E isso SERIA COMO DORMIR NO COLO DO TEMPO, e conseguir ver através DO GLOBO OCULAR que o grande ESPETÁCULO é o que NÃO APRENDI A DIZER, acerca DO VERBO AMAR. E desafio-te: DECIFRA-ME! Decifra-me para que eu possa compreender O QUE ENTENDEM POR AMOR...
Chego, chego quase SEM fôlego, no que me veio em forma de sussurro, ousadamente. O que balbuciei como sendo OS SEM TEXTOS. Cem textos em 176 dias. Sem textos porque descobri que nada sei. Sou uma "des-Textada". Preciso de mais, mais e mais. Esse é meu alimento, esse é o meu motor. Esse é o meu cansaço, minha dor e meu sorriso maior. Amo a palavra, amo a cena, amo o instante mágico em que os dedos se descompassam e atravessam folhas e comem lápis e deitam em mim, assim... como tatuagem, roupagem, espelho. Chego, chego quase SEM fôlego aos meus SEM de cem TEXTOS. Respiro você, respiro o que pensas agora... Decifra-me, agora!
-Agradeço de coração a todos vocês... Que amam a palavra... que a elevam... que dançam comigo nessa corda que é a escrita, na dor de saber se nossos próprios olhos se agradarão, se as almas de outras pessoas se alimentarão. Em especial: Rinnaldo Alves, Bianca Alves, Kátia de Carli, Anderson Meireles, Mauro Rocha, Ana Diniz, Gerlane Melo, Cris Fontes, Martha Thorman, Amanda Manfredini, Su... Marias, Joãos, Zés, Jorges, Anas!
Meus beijos.
Sinceramente,
Drielly Neres - Outubro/2008
COMO PAPIRO PRESO NA GARRAFA, ME FAÇO. Vou encolhida para que ainda me sobre espaço. Vou de meias porque a noite pode fazer frio intenso. Vou de carona, porque perdi identidade. Como astronauta marinho, me deixo. Vou de calças longas, não quero me molhar. Vou com as mãos nos joelhos, preciso pensar. Com tampa, proteção, sentada... sigo a minha viagem. Preciso de atenção, preciso só de coragem. Pensei em deixar isso como história em quadrinhos. Descobri tristemente, que não caibo nas páginas grandes dos livros. Sou personagem que invento a cada hora, mas sobretudo, sou humana só de passagem. Tenho várias caras, vários mitos, vários gritos. Eu não caibo nas literaturas. Sou personagem dos livros de Hamlet, sou o vento que perpassa teu corpo cintilante, fugaz.
Caminhos vários - Pensamentos soltos
A teoria dos iguais - O preconceito dos diferentes
Um peregrino a caminhar - Entre pedras, lá...
Não sei, não sei! - Eu procuro abraços desconhecidos
Ainda espero amores antigos - Entre tantos
Procuro só um ser - Me procuro ali no meio
Espero que você me ache - Entre o amarelo e o singular
Espero que eu saiba - Do que não aprendi a dizer
Mesmo sem saber - Ouso porque sinto
Ouso porque quero - E tudo que quero
Se traduz em quatro letras - V-O-C-Ê!
Você que não sei o nome - Nem a cor dos olhos
Você que nem sei se existe - Ou se só habita meus sonhos
Você que no meio de tanta gente - Me chama a atenção
Eu que te espero nesse barco sem velas - Em desalento e solidão
"Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que vendo, não vêem"! - Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago.
Já procurei habitar reinos inabitáveis, rir risos contidos, escrever o que não sei. A literatura da minha vida é extensa. Não é simbolista, nem tão moderna. Na verdade, sim eu vou falar: - Eu sou romântica em cada fibra do meu corpo. Vejo-me aqui, em cansaço descomunal, em olheiras que se formam em meus dedos, nesta noite em que o frio veste a alma, neste quarto em que me dançam os violões. Meu corpo treme, reza, pede. Pareço estar em febre parafrástica. Tento pousar os pensamentos num papel qualquer, mas eles em confluência, parecem não querer ser traduzidos. Talvez esta noite tenha duas pernas, talvez seja curta demais. Insônia! Por incrível que pareça, os sintomas estão em evidência. Eu sinto uma febre de palavras que soam nas mais diversas estrofes por onde perpassam minhas idéias fugídias. É febre interna, desde que eu brotei aqui. E cada música tem o mesmo perfume, e em cada perfume o mesmo som. Penso que desta vez o amor me bate desesperadamente à porta. Pede passagem e segue viagem. Ele não costuma ser tão insistente. A minha literatura repousa na inquietação da alma. O tempo foge do meu controle. Sinto frio. Fome. Sede. Sinto vontade de voltar. Mas pra onde?
O silêncio e as mãos que apoiam minha face, permitem que lágrimas-várias escorram sem ao menos molhar meu local de guardar os olhos. Eu não sei mais chorar. A febre aumenta, e minhas células se batem, se queimam. Minha literatura não é o realismo. Minha dor nunca é a mesma, porque as alegrias também mudam. Já vi tantas vidas passarem pela minha. De algumas mal lembro, de outras quando o vento vem e me sopra as falas. Nunca me esqueço de uma palavra que fora lançada aos meus ouvidos, mesmo que esta tenha setenta anos caducos dentro do meu sensível e intuitivo tom memorialista. É de estranheza ímpar que eu me encontre aqui tão tarde, a cantar minhas verdades. Me desintegro. Não se preocupe, está tudo bem. Da minha doença, eu é quem sei. Do meu remédio, sei que a receita está ao alcance da minha mão esquerda. Finjo esquecer disso tudo. Assistir ao jogo é mais seguro que jogar. Os graus aumentam, meus poros se molham. Eu tenho febre. Física. Meus pulsos abriram. Meus céus se distorceram na brancura dos meus cabelos negros. A atividade quase semântica do meu ato de escrever, me causa desesperação. Quero escrever tudo. Quero escrever o mundo. Mas ele se condensa em gotas doces, onde escorre pouco a pouco longe de mim. Os mundos são vários, muitos. Ninguém vai conseguir traduzí-los nunca, porque são muitos. Os mundos são vários, de todas as cores, de todas as gentes.
No meu arquipélago febril, onde meus órgãos parecem se cozinhar, me deixo dormir em cima da minha literatura, do livro que é meu travesseiro. As vistas baixas, o olho menor do que de costume, as luzes que não vejo, a máquina de escrever que se move lentamente fazendo o som de vento... Eu só queria tomar esta música num gole só. Eu só queria que o amor fosse de verdade. Queria saber ter coragem. A febre aperta-me a garganta num gesto rude de me levar minha clave de sol, de não me fazer enxergar os pássaros amanhã quando houver dia. Estou a delirar. Tudo que escrevo é desvario, é delírio de loucos. É passagem para a barca que não sei se conduz à parte clara que tanto pintam como a mais bonita. Minha literatura é jardim de uma flor só. Só preciso de uma. Só preciso de ar. Eu vou tomar o remédio, um dia. Mas me deixa ter febre somente por mais essa noite. Me deixa repousar na copa das árvores de folhas molhadas pelas lágrimas que emanam do azul celeste do que o homem ousou chamar de céu. Me deixa ter asas para nadar como quem compõe notas ao ar. Me deixa, me deixa ser febril, em doce febre de amar o que não se sabe que ama... em sutil cólera de sensibilidade poética. Apenas à minha febre, desejo que morra um dia e que a terra devore seus graus elevados a mil que escorrem em minha pele.
Ps.: Recebi a imagem via e-mail por um grande e sábio amigo... O comandante Lúcio Gomes. Justamente no dia em que prostrei-me a pensar na tal caixa de tintas... Coincidência? Obrigada Comandante!
Quando penso em voar, a primeira imagem que se apresenta sobre minha face é a de um pássaro. Humanos são bem parecidos com pássaros, embora não saibam. Eu gosto de sentir cheiro de céu e de comer vento. Eles também. Eu ajo por instinto e sei bem a hora de me isolar do mundo. Eles também. Eles têm uma visão de longo alcance. Eu ainda não. Penso que voar é sair de si. Penso se em determinados momentos o desejo deles fosse tocar o chão e não o céu. Talvez o meu seja o mesmo. Que doce... os pássaros a andar como gente, com cabeça de gente, tocando violão, entoando canções... sentados à mesa, em grandes reuniões, a beber vinho. Que encanto... um engarrafamento no céu. Humanos batendo asas, carros a voar, casar no andar de lá.
Da minha cadeira frente à janela, frente ao mar que não existe aqui... Divago, divago. Eu quero fazer uma experiência de tentar alçar vôos. Nem que eu pegue carona numa dessas máquinas grandes de voar. Nem que eu tenha que escalar o Everest. Eu não sou tão pesada assim. Já vi muita pedra voando, já vi muito, folha pregada ao chão. Eu quero fazer uma experiência de tentar alçar vôos.E isso tem sido como o próprio pulsar da vida que habita em meu corpo. E isso tem sido o movimento de realizar a abertura e o fechamento dos olhos. Porque eu quero me assemelhar aos pássaros, em sua liberdade, sensibilidade, razão. Porque os pássaros seguem, seguem sem deixar que o medo lhe invada as camisas.
Sei pouco de mim e os pássaros vão poder me ensinar quantos grãos eu posso comer por dia, qual a moradia em que devo me alojar. Vão me ensinar que não importa a velocidade dos ventos quando se tem objetivos fixos e que seguir em frente é a melhor opção, quando se tem várias e nenhuma. Vou tocar notas e arranjos com os fios invisíveis que se formam na imensidão e assim, voar. O vôo sentado, o vôo aberto, com perspectivas de volta à mesma embarcação. Distraída. Preciso voltar em alguns momentos meus... até a volta se encontra indo em frente! Dos pássaros que pousam, das gentes que voam, dos "cegos do castelo", dos objetos de voar que caem... eu quero ser embarcação, só. Não importa se na terra, no ar,no mar, eu preciso alçar vôos leves, últimos, encantadores. Que permitam aos meus olhos mergulhar. Que permitam minha pele se soltar, se salvar. Porque no final, tudo vai ser um vôo. Onde você vai pousar? Em doces lagos de água quente ou em campos de trigo de sóis poentes? Porque no final, tudo vai ser um vôo.
As ondas do mar espreguiçaram-se sobre os meus pés. O sol bocejou-me, indicando que eu passara o dia inteiro ali, sentada. As estrelas não se demoraram em cair sobre minha cabeça em gotas cintilantes, como se caísse o próprio céu. As areias fizeram-se minha própria pele, porque de compaixão elas sofriam ao ver que eu estava em carne viva. Anoitecia. Um cenário dramático para quem carregava somente uma mochila óptica cheia de vento, que guardara para brincar de tocar os nadas, caso lhe faltasse algo a fazer. Em largos goles, a ausência da luz dos meus olhos, bebia-me, sugava-me, arrancava-me da presença minha. Quisera eu, saber ser uma fazedora de histórias, uma vendedora de passados, uma invenção boa de algum Nicholas Shakespeare, uma personagem Julietiana... me restou, o Ser Onomatopáico, onde exalar sons me fizera ser o bastante. Eu me acostumei com a minha condição de gente, já que bicho tem que morar na selva e não pode entrar em biblioteca. Dou mil voltas, em mil haréns e retorno com o mesmo véu: a falta tua em mim. Hoje me recordei do riso de doçura sibilante, do olho ansioso que não sabia bem fitar os meus por muito tempo. Recordei-me da dor primeira que avistei em teus olhos e dos dias em que quis ser teu porto, tua felicidade e teu vinho. Vendo como uma Osga de atividade cinegética, fico presa à idéia de que estou certa que terei de te levar ainda por muito tempo por aqui. Porque da árvore que brotam minhas palavras, você se fez a raiz. Eu temo ter que parar de escrever, por minha raiz ter-se encurvado. Eu temo que talvez ainda seja... que talvez ainda seja amor o que eu sinto. As ondas voltam a se espreguiçar e me trazem a difícil missão de adivinhar o que vai arranhar meu dorso. Se serão as aves ao se esquivar, ou se o vidro vai correr pelo rio em cabelos de espumas incandescentes. É a difícil missão de adivinhar... Porque talvez você tenha sido meu amor mais intenso e doce. Talvez ainda seja!
ME EMBRIAGO NA TUA AUSÊNCIA, PORQUE DE ALGUMA FORMA, VOCÊ MORA NUM PEDAÇO MEU. SEJA EM QUAL VIDA FOR, SE SEREI UMA FOTÓGRAFA DE GUERRA, OU UMA SIMPLES COLECIONADORA DE IMAGENS DE LUZ. SE SEREI MENDIGA OU CLEOPATRA, AS RUINAS OU AS RAMAGENS... SEREI UM PEDAÇO TEU. SEREI A MEMÓRIA TUA EM MIM, EM CONSTANTE MUTAÇÃO. TALVEZ AINDA SEJA.
Baús vivos, esfinges trancadas, vidros trincados e peliculados. Escondemo-nos de nós mesmos a cada segundo de nossa breve existência. Usamos sorrisos, brincos, peles para nos camuflar; mas tem a alma nossa, que faz um barulho ensurdecedor e por alguns instantes, foge desta casca superficial que é o corpo nosso. Deseja nos tocar. Está cheio de vozes, o meu barco.
VERBO ERMO VIL SOLAR AQUI ACOLÁ – O SEGREDO.