Dry Neres



"Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que vendo, não vêem"! - Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago.


Já procurei habitar reinos inabitáveis, rir risos contidos, escrever o que não sei. A literatura da minha vida é extensa. Não é simbolista, nem tão moderna. Na verdade, sim eu vou falar: - Eu sou romântica em cada fibra do meu corpo. Vejo-me aqui, em cansaço descomunal, em olheiras que se formam em meus dedos, nesta noite em que o frio veste a alma, neste quarto em que me dançam os violões. Meu corpo treme, reza, pede. Pareço estar em febre parafrástica. Tento pousar os pensamentos num papel qualquer, mas eles em confluência, parecem não querer ser traduzidos. Talvez esta noite tenha duas pernas, talvez seja curta demais. Insônia! Por incrível que pareça, os sintomas estão em evidência. Eu sinto uma febre de palavras que soam nas mais diversas estrofes por onde perpassam minhas idéias fugídias. É febre interna, desde que eu brotei aqui. E cada música tem o mesmo perfume, e em cada perfume o mesmo som. Penso que desta vez o amor me bate desesperadamente à porta. Pede passagem e segue viagem. Ele não costuma ser tão insistente. A minha literatura repousa na inquietação da alma. O tempo foge do meu controle. Sinto frio. Fome. Sede. Sinto vontade de voltar. Mas pra onde?
O silêncio e as mãos que apoiam minha face, permitem que lágrimas-várias escorram sem ao menos molhar meu local de guardar os olhos. Eu não sei mais chorar. A febre aumenta, e minhas células se batem, se queimam. Minha literatura não é o realismo. Minha dor nunca é a mesma, porque as alegrias também mudam. Já vi tantas vidas passarem pela minha. De algumas mal lembro, de outras quando o vento vem e me sopra as falas. Nunca me esqueço de uma palavra que fora lançada aos meus ouvidos, mesmo que esta tenha setenta anos caducos dentro do meu sensível e intuitivo tom memorialista. É de estranheza ímpar que eu me encontre aqui tão tarde, a cantar minhas verdades. Me desintegro. Não se preocupe, está tudo bem. Da minha doença, eu é quem sei. Do meu remédio, sei que a receita está ao alcance da minha mão esquerda. Finjo esquecer disso tudo. Assistir ao jogo é mais seguro que jogar. Os graus aumentam, meus poros se molham. Eu tenho febre. Física. Meus pulsos abriram. Meus céus se distorceram na brancura dos meus cabelos negros. A atividade quase semântica do meu ato de escrever, me causa desesperação. Quero escrever tudo. Quero escrever o mundo. Mas ele se condensa em gotas doces, onde escorre pouco a pouco longe de mim. Os mundos são vários, muitos. Ninguém vai conseguir traduzí-los nunca, porque são muitos. Os mundos são vários, de todas as cores, de todas as gentes.
No meu arquipélago febril, onde meus órgãos parecem se cozinhar, me deixo dormir em cima da minha literatura, do livro que é meu travesseiro. As vistas baixas, o olho menor do que de costume, as luzes que não vejo, a máquina de escrever que se move lentamente fazendo o som de vento... Eu só queria tomar esta música num gole só. Eu só queria que o amor fosse de verdade. Queria saber ter coragem. A febre aperta-me a garganta num gesto rude de me levar minha clave de sol, de não me fazer enxergar os pássaros amanhã quando houver dia. Estou a delirar. Tudo que escrevo é desvario, é delírio de loucos. É passagem para a barca que não sei se conduz à parte clara que tanto pintam como a mais bonita. Minha literatura é jardim de uma flor só. Só preciso de uma. Só preciso de ar. Eu vou tomar o remédio, um dia. Mas me deixa ter febre somente por mais essa noite. Me deixa repousar na copa das árvores de folhas molhadas pelas lágrimas que emanam do azul celeste do que o homem ousou chamar de céu. Me deixa ter asas para nadar como quem compõe notas ao ar. Me deixa, me deixa ser febril, em doce febre de amar o que não se sabe que ama... em sutil cólera de sensibilidade poética. Apenas à minha febre, desejo que morra um dia e que a terra devore seus graus elevados a mil que escorrem em minha pele.



Ps.: Recebi a imagem via e-mail por um grande e sábio amigo... O comandante Lúcio Gomes. Justamente no dia em que prostrei-me a pensar na tal caixa de tintas... Coincidência? Obrigada Comandante!

Quando penso em voar, a primeira imagem que se apresenta sobre minha face é a de um pássaro. Humanos são bem parecidos com pássaros, embora não saibam. Eu gosto de sentir cheiro de céu e de comer vento. Eles também. Eu ajo por instinto e sei bem a hora de me isolar do mundo. Eles também. Eles têm uma visão de longo alcance. Eu ainda não. Penso que voar é sair de si. Penso se em determinados momentos o desejo deles fosse tocar o chão e não o céu. Talvez o meu seja o mesmo. Que doce... os pássaros a andar como gente, com cabeça de gente, tocando violão, entoando canções... sentados à mesa, em grandes reuniões, a beber vinho. Que encanto... um engarrafamento no céu. Humanos batendo asas, carros a voar, casar no andar de lá.
Da minha cadeira frente à janela, frente ao mar que não existe aqui... Divago, divago. Eu quero fazer uma experiência de tentar alçar vôos. Nem que eu pegue carona numa dessas máquinas grandes de voar. Nem que eu tenha que escalar o Everest. Eu não sou tão pesada assim. Já vi muita pedra voando, já vi muito, folha pregada ao chão. Eu quero fazer uma experiência de tentar alçar vôos.E isso tem sido como o próprio pulsar da vida que habita em meu corpo. E isso tem sido o movimento de realizar a abertura e o fechamento dos olhos. Porque eu quero me assemelhar aos pássaros, em sua liberdade, sensibilidade, razão. Porque os pássaros seguem, seguem sem deixar que o medo lhe invada as camisas.
Sei pouco de mim e os pássaros vão poder me ensinar quantos grãos eu posso comer por dia, qual a moradia em que devo me alojar. Vão me ensinar que não importa a velocidade dos ventos quando se tem objetivos fixos e que seguir em frente é a melhor opção, quando se tem várias e nenhuma. Vou tocar notas e arranjos com os fios invisíveis que se formam na imensidão e assim, voar. O vôo sentado, o vôo aberto, com perspectivas de volta à mesma embarcação. Distraída. Preciso voltar em alguns momentos meus... até a volta se encontra indo em frente! Dos pássaros que pousam, das gentes que voam, dos "cegos do castelo", dos objetos de voar que caem... eu quero ser embarcação, só. Não importa se na terra, no ar,no mar, eu preciso alçar vôos leves, últimos, encantadores. Que permitam aos meus olhos mergulhar. Que permitam minha pele se soltar, se salvar. Porque no final, tudo vai ser um vôo. Onde você vai pousar? Em doces lagos de água quente ou em campos de trigo de sóis poentes? Porque no final, tudo vai ser um vôo.

As ondas do mar espreguiçaram-se sobre os meus pés. O sol bocejou-me, indicando que eu passara o dia inteiro ali, sentada. As estrelas não se demoraram em cair sobre minha cabeça em gotas cintilantes, como se caísse o próprio céu. As areias fizeram-se minha própria pele, porque de compaixão elas sofriam ao ver que eu estava em carne viva. Anoitecia. Um cenário dramático para quem carregava somente uma mochila óptica cheia de vento, que guardara para brincar de tocar os nadas, caso lhe faltasse algo a fazer. Em largos goles, a ausência da luz dos meus olhos, bebia-me, sugava-me, arrancava-me da presença minha. Quisera eu, saber ser uma fazedora de histórias, uma vendedora de passados, uma invenção boa de algum Nicholas Shakespeare, uma personagem Julietiana... me restou, o Ser Onomatopáico, onde exalar sons me fizera ser o bastante. Eu me acostumei com a minha condição de gente, já que bicho tem que morar na selva e não pode entrar em biblioteca. Dou mil voltas, em mil haréns e retorno com o mesmo véu: a falta tua em mim. Hoje me recordei do riso de doçura sibilante, do olho ansioso que não sabia bem fitar os meus por muito tempo. Recordei-me da dor primeira que avistei em teus olhos e dos dias em que quis ser teu porto, tua felicidade e teu vinho. Vendo como uma Osga de atividade cinegética, fico presa à idéia de que estou certa que terei de te levar ainda por muito tempo por aqui. Porque da árvore que brotam minhas palavras, você se fez a raiz. Eu temo ter que parar de escrever, por minha raiz ter-se encurvado. Eu temo que talvez ainda seja... que talvez ainda seja amor o que eu sinto. As ondas voltam a se espreguiçar e me trazem a difícil missão de adivinhar o que vai arranhar meu dorso. Se serão as aves ao se esquivar, ou se o vidro vai correr pelo rio em cabelos de espumas incandescentes. É a difícil missão de adivinhar... Porque talvez você tenha sido meu amor mais intenso e doce. Talvez ainda seja!

ME EMBRIAGO NA TUA AUSÊNCIA, PORQUE DE ALGUMA FORMA, VOCÊ MORA NUM PEDAÇO MEU. SEJA EM QUAL VIDA FOR, SE SEREI UMA FOTÓGRAFA DE GUERRA, OU UMA SIMPLES COLECIONADORA DE IMAGENS DE LUZ. SE SEREI MENDIGA OU CLEOPATRA, AS RUINAS OU AS RAMAGENS... SEREI UM PEDAÇO TEU. SEREI A MEMÓRIA TUA EM MIM, EM CONSTANTE MUTAÇÃO. TALVEZ AINDA SEJA.

Baús vivos, esfinges trancadas, vidros trincados e peliculados. Escondemo-nos de nós mesmos a cada segundo de nossa breve existência. Usamos sorrisos, brincos, peles para nos camuflar; mas tem a alma nossa, que faz um barulho ensurdecedor e por alguns instantes, foge desta casca superficial que é o corpo nosso. Deseja nos tocar. Está cheio de vozes, o meu barco.
VERBO ERMO VIL SOLAR AQUI ACOLÁ – O SEGREDO.

Esvaziei as malas das futilidades e assombros que quis guardar. Joguei fora os lenços molhados com os sorrisos assinados que me deram um dia. Corri de meias pela grama molhada e arranquei flores que estavam presas aos meus livros. Soltei as armaduras e foices para que pudesse me sentir mais amigável, mais amável e sinestésica. Caminho devagar porque um dia meus joelhos irão reclamar das vezes que quis correr com os braços amarrados à cabeça. Quero que os elementos da terra me narrem. Hoje o dia está frio, mesmo quando o termômetro marca 37 graus. Hoje o dia está frio, porque seu abraço se perdeu do meu. Hoje o dia frio está, porque não sei mais escrever de dores que ficaram para trás. Reflito no caminho pensamental que farei entre Santiago, Egito, Porto Alegre e Salvador. E sigo... caminhando! Não tenho chicletes, nem Cd's. Perdi o relógio que eu mais gostava, soltei os óculos nas águas quentes e os brincos estão sobre a mesa. Sem ornamentos, sem lantejoulas. Sigo, somente com o lápis na mão.
O que você vê?

Uma mulher com a face em prantos?
Um golfinho a navegar no mar?
Um anjo vestido de mantos?
Um olhar que parece gritar?
O que você vê?
Uma bailarina a rodopiar...
O silêncio que se fez amigo...
O amor que me faz escutar...
Teu sorriso, meu abrigo...



Mais do que denúncias sociais interiores ou externas, minhas palavras devem ser um grito!
Lembro-me das telas e arames e tiros. Lembro-me do soldado que tatuou o movimento de atirar em seus pensamentos, e que fora acometido pela loucura dos que se dizem sãos. Penso com rude tristeza nas famílias que se viram obrigadas a deixar suas casas, cada uma com um tiro nas mãos. Retalho os olhos de sangue, sentindo o cheiro do vermelho vivo que escorria das cabeças dos esquartejados. Vivo pensando na dor que emanava da respiração ofegante dos que corriam descompassados com as bocas abertas à espera que de algum helicóptero escorre-se grãos de arroz crus e sujos. Eu só não corro porque tenho pressa. Estranho? Bastante! Mas, eu só não corro porque tenho pressa em desenhar cada história dessa, em que o protagonista é o João, o Zé, o Tiradentes, a Olga, o Che, Eu, Você. Nossas faces estão entrelaçadas, nossos corpos separados pelas armas frias, as gentes frias, o tempo que se esfria a medida em que as geleiras derretem. Os animais vêem suas peles sendo arrancadas enquanto o coração ainda bate. As crianças vêem os cortes que as janelas fazem em seus pequenos corpos. Os idosos sentados nos bancos vêem injeções de morte a cada segundo. As escolas perderam as cadeiras e deram espaço à cadeias que abrigam os sedentos de sonhos. O dólar sobe, os sete-palmos descem. A fome assola e assombra. A vaidade estampa e estanca as máscaras já riscadas. Os políticos em seus "jogos de futebol" driblam nosso humor. É o mundo que pára entre o Obama e o McCain. Os furacões avançam no mesmo instante em que artistas apresentam suas coleções de grife. Ainda sonho com uma apnéia pela paz!
A batalha nossa de cada dia, consiste simplesmente em saber ver flores em pedras. Consiste em sorrir enquanto somos afogados pelas bocas salivantes de mentiras fantasiadas de poesia. Eu vejo o ouro transformado em enxofre. Eu vejo pérolas sendo dadas aos porcos. Eu preciso gritar, porque mudo se fez o mundo-do-medo-maior. Os jornais não noticiam o nascimento dos bebês, nem a vitória dos que aprenderam a lidar com suas adversidades. Não dá ibope! Ibope mesmo é ver o BOPE "agindo" nas favelas fluminenses, ou o desfile da tal "Independência" na Esplanada. Bonito mesmo é a anorexia, bulimia. Bonito mesmo é fazer penteado de bicho em cabelo de madame. O cuidador de carros do estacionamento dos Ministérios não importa. Ele é só mais um Zé e a história dos homens grandes não contempla os Zé's, mas sim os Goulart, Ferreros, Petrarcs, hipócritas, profanos...
Das bocas que se inclinam em direção ao céu...
Dos sangues que jorraram das cabeças...
Das bruxas que não ousei falar...
Do ouro transformado em enxofre...
Que tudo mude, ao menos um pouco.
Que tudo fique, de alguma forma melhor.

Eu não sei. Nunca soube beijar o amor. Talvez boca seca, talvez seja salivante demais. Talvez mãos que fogem uma da outra. Talvez, só falta de sorte. Eu não sei beijar minha alma. Talvez seja tão malfadada. Talvez, só falta de sorte e mais nada. Nas noites em claro do mais profundo sono de fuga do corpo. Durmo, sonho, corro só para te esquecer. Almofadas vermelhas, luzes escuras, o vento transparente... Você, um lugar seguro que não posso me refugiar. O amor são meus dedos, minhas unhas cravadas nas pálpebras tuas. O amor é minha teia, veia, pés. Oh amor, eu não sei beijar-te. Eu não sei te fazer dançar. Procuro ritmos descompassados, malfeitos, desleixados... encontro você, tão perfeito e drástico. Oh amor, eu não sei beijar. Entre permanecer e morrer com teu veneno doce... fico! Fico sem saber o que fazer, porque a velocidade da paixão que tenho, ultrapassa a digitalidade das fotos que são rápidas em registrar-te parada, fugaz. E já me pergunto. E já me respondo. Eu não sei beijar, amor meu, princípio da minha lealdade expressiva e das falas poeticossintetizadoras.
Eu e meu anacronismo. Eu e meu antagonismo. Uma toupeira, um bicho romântico que não sabe falar ao celular. Que anda em contramão à evolução. Que quer retornar, mas sabe que as pernas não suportariam sozinhas e que quer seguir em frente, mas sabe que os cabelos mudaram de cor. Não sei mais tocar borboletas, nem revolver vulcões. Muito pior ou menos, sei ajeitar meu jardim com bancos coloridos para que você repouse. Encontrei uma placa no caminho arborizado pelo qual caminhava e ela balbuciava assim: "Aqui mora teu remédio. Vire à direita". Segui em frente e li outra: "Passaste por teu remédio e não o tocou. Beba a tua dor. Vira à direita". Em outra placa mais a frente ouvi os seguintes dizeres: "Senta, ouve, pára. O amor também ensina a beijá-lo. Embora não tenha manual, ele te explica o que não cabe em livros. Fique. Espere. Respire. Não vá para direita, nem para esquerda, nem ande, nem volte. Fique".
Me peguei a pensar nisso tudo. E assustada esfregando os olhos com as mesmas lágrimas ácidas, percebi que tenho várias placas dentro de mim. Mas que sendo o amor movedor de toda a minha poesia (sim! Poesia que é a vida minha), eu deveria me guiar somente por ele. Apesar de nunca ter sabido beijá-lo de forma eternal, eu posso esperar que ele me beije. Me ensine, me dê palmadas. Desenhe flores ou pedras em meus caminhos. Me tire a miopia, me tire toda a razão que movem os homens sem fé e sem emoção. Aprendi que posso beijar maçãs, ou livros, ou violões, ou fotos, ou vidas. E não preciso saber fazê-lo. A desconstrução é a maior dádiva que o ser pode guardar nos seios. Quebrar ondas de mar e fios elétricos é desconstruir, porque você aprende que o beijo não é tudo.
SOLTA-ME A ALMA. DERRUBA-ME EM VOCÊ. ME ARRANCA A GARGANTA TRÉPIDA. ME TIRE OS ÓRGÃOS VIVOS. LEVE MINHA PELE. ME LEVE... LEVE QUERIA EU ESTAR. LEVE, ATÉ COM FALTA DE AR. MAS LEVE, LEVE, QUERIA ESTAR. TEM GENTE QUE PARECE TER NASCIDO SÓ PARA SOPRAR AMOR, NÃO PARA ENGOLIR. EU, SOU!
Pra você, de voz infantil e doce...

Memorialista, eu sou! Gosto de costurar as histórias por onde passei como protagonista. É... meu timbre é muito confessional. E sou em muitas horas do meu dia, somente um fake. Humana como você, sou eu. Minha diversão é fingir que estou presente neste mundo. Camuflo toda a minha ausência com pele de cetim. A minha memória é um universo e você faz parte dela. Nos últimos segundos, eu tenho pensado bastante sobre os momentos em que andar de bicicleta sem as mãos me instigava, me excitava. Pensei no meu falatório com minhas bonecas e cadernos de desenho. Vi que nada disso me atrai mais.
Sinto necessidade hoje de pular do mais alto trampolim e de nadar junto à baleias. Me fiz um tanto lunática, visionária ao extremo. Quis ser poeta e acabei descobrindo que é um caminho sem volta. Escrever dói, escrever derrama, escrever me faz viver. Mas eu tenho endeusado de forma sinestésica o âmbito que percorre a soltura entre corpo e alma. E queria. E quero uma hora dessas.
Eu estive velejando sobre a verdadeira face da minha idade psico-temporal. E percebi espantada que o sorriso de menina esconde rugas e sobrancelhas arqueadas e cortes nas mãos. Os ombros são caídos e o olho arde... É uma ardência da chuva ácida que tem feito meus olhos nus e côncavos desfalecerem em sangue. Lembro, lembro... Memorialista, sou. Eu não queria ter uma locomotiva nos pensamentos. Pareço estar sempre dando um passo à frente. Pareço, só! Na verdade a chuva ácida que corre dos meus olhos me obriga a olhar lá pra antes daqui. Ainda tem algo mal resolvido. Ainda tem algo escondido. Ainda tem algo que preciso esquecer. Joguei umas roupas fora, quebrei quadros e imagens, "vesti" botas e "calcei" luvas... mas, não resolveu!
E quem garante a você, que é tudo verdade? Eu sou um fake!
Invento, pinto, recrio, minto... FINJO! Eu posso tocar o que você pensa agora e sinto o tremor e temo pela tua agonia. Eu agora sou colecionadora de grãos de areia. Sou também a esfinge do cerrado. Eu agora trabalho com girassol. E estou sem pecado. Eu sou um fake e acreditar no que eu digo talvez seja a maior burrice que você esteja fazendo. Você, que me lê... o que acha disso? Não. Não precisa dizer! O que eu acho é que descobri que podemos dialogar, mesmo que não seja em tempo real. Descobri que posso trazer sua memória para carregar a minha que perdeu a bateria e os parafusos. Memorialista, não queria SER!
FALAM MAIS QUE TUDO: SÍMBOLOS DAS MEMÓRIAS DA POSTUMIDADE DA VIDA MINHA

A loucura, o caos personificado - De autores desconhecidos de Bagdá
E relembro nitidamente a figura doce dos países por onde AINDA não passei... dos que não tenho o nome, nem legenda, nem GPS. E relembro... e penso... e peso... MEMORIALISTA!



Elas às vezes trazem espinhos, mas mesmo assim, não deixam de beijar. O beijo seco, mórbido, moribundo... o beijo! Minha alma dança com balanças e pingos no olho. Minha alma quer morar em mim, mas é uma luta tão grande... Mas é uma sinfonia cintilante que me leva, me leva, me leva pra longe. Eu vejo uma corda invisível e vejo também roupas rasgadas com botões de flores amarelas, azuis, transparentes e flores, só flores. São flores ou são só minhas mãos? Sei que tocam suavemente, como toca o anjo sua trombeta. Eu recuo! Caminho entre as águas que mais parecem escadas que vão me levar ao reino onde a lei é o amor. Caminho entre farpas que o tempo também me deixou. Caio nas redes dos peixes que lancei ao mar uns três mil anos atrás. Invento brinquedos novos, colo algumas peças e "cabeças-quebra" de fotos que meus pés arrancaram com toda ousadia das areias da praia... A mesma praia que eu prometi que construiria uma casa de folhas... não folhas de árvores, mas de cadernos... com todas as letras que firmaram o alicerce da minha ausência de mundo, da minha fuga intensa, eterna, pretenciosa... Reparo que à direita, um velho tenta plantar mais flores no pico da montanha e eu me pergunto o porquê de ser tão alto. E fito o céu e posso ler a resposta: lá em cima é mais difícil de alguém arrancar, lá ela fica perto dos teus pensamentos que voam como tesouras de asas e bicos sorridentes. As flores que beijam meu rosto, não beijam meus olhos... elas são poucas ou muitas, muitas e poucas. Em que direção elas vão? Quem há de fazê-las retornar à alma que chama por olhos encantados? Todo o brilho se perdeu, se prendeu e se soltou. Quando se compreende bem as coisas, perde-se o encanto por elas... porque a cor que me move, ainda está no desconhecido, ainda está nas ruas que eu não sei o nome e nos planetas que não tenho o endereço para correspondência. O encanto deve ter ficado no armário, ou no porta retrato que criei no celular... talvez na máquina fria e orgânica que guardo a cada click, a mudança que as flores que beijam meu rosto me proporcionam. Eu vejo a flor que nasce, cresce e morre... a morte é só uma transformação necessária... a hipótese é o estado final do pensamento fascinado pelos nadas e tudos que a existência nos impõe. A hipótese é o estado final do lápis que foi apontado, porque antes era árvore que antes era semente. Dos pingos e das balanças, das roupas e das notas, do tempo e do infinito, do céu e da terra, do princípio e do fim... Me despeço! ...dos anexos sem passagem de volta... nunca da vida. Porque a vida é simplesmente uma dádiva. Abrace-a com as pernas e beije-a com os braços e lhe dê flores com a ponta do nariz!

FALA, GRITA, ANDA, CORRE, FALA, ANDA, CORRE, GRITA... FALA!
SilênciO!!!
Emudeço diante da lonjura de alcance em que teus pensamentos se afastam dos meus. O amor me rouba as falas ensaiadas, as músicas previstas, me rouba a sanidade, a coerência e a verdade. O amor é o carro-chefe da vida humana... mas alguns ainda insistem em fazer dele tapete para se deitar, insistem em fazer dele local de repouso certo, Porto fixo e imutável. Ele não se prende. Ele quer correr, andar, brincar e gritar em silêncio. Ele não precisa de voz externa. Ele fala através do corpo onde é templo. O amor gosta de cheirar rosas e beber água em nascentes. Ele é inventado. Uma pintura! Um oásis, ilusão. O amor nos rouba as chaves do carro e também as do coração. Eu confesso ser desconhecedora de tal dádiva. Toda vez em que eu me arrisco a tocá-lo ele foge em seu cavalo dourado com armaduras transparentes. Mas não... eu não aprendo nunca! Preciso deixar ele vir falar comigo, preciso fazer com que ele sinta minha falta... eu não preciso fazer nada! Ele viaja, viaja... o mundo é realmente encantador! Como pudera eu acreditar que ele acampasse comigo? Eu sinto o cheiro de romance nele. Mas tudo o que posso oferecer agora é uma comédia com ares desencantados. Eu vou subir... essa montanha. Vejo um príncipe e vejo princesas, sapos e orquestras. Vejo luz e vejo nada. Vejo você caminhando na ponte, mas minhas pernas se entrelaçaram nos arbustos de uma pedra pesada, que eu mesma criei. Você tá indo... olha pra trás e sorri às vezes. Eu sinto seu perfume e seus jeitos em roupagens que não existem. Você flutua e alça vôos para uma nova viagem. Não sei se volta, se parte, se fala... em silêncio! Ah, o amor... é tirano e divino. É eterno e efêmero. É silêncio e grito! Mas eu...
Emudeço e fico sentada na eterna calçada esperando que algum turista deseje fazer excursão no meu mundo ímpar e de um colorido nebuloso.


Ah, eu queria o colo de um rio que desce chorando amarelo e branco... E os sóis que cantam formando desenho em nuvem... E mergulhar meus erros tolos nas correntezas que logo batem numa rocha quente. Bagdá talvez, Salvador, Poá ou Ouro Preto... tanto faz. Eu queria mesmo, repousar em outras camas, beijar outros livros vivos de história, matemática, alemão. Porque entre a Nau e o Porto tem um longo caminho de incertezas e escolhas despercebidas. Porque entre a Nau e o Porto existe o maior inimigo do homem. Porque entre a Nau e o Porto, não existe... existe o amor que se esconde entre os postes e esquinas e mesas de bar. O encontro que meus dedos tocaram uma vez, anseia por ser bebido vagarosamente, dia após dia, com você. Eu fujo do que é claro, entro na minha caixa particular de Pandora, e encontro lá o misticismo que minha alma pede para viver. Mas na verdade o que eu queria era achar uma ponte que firmasse caminho doce para que chegássemos iguais, ao que molha. Ao que molha nossa boca, nosso coração, nossos pés que se balançam bem em cima do ar; a chuva que não precisa cair pra dizer que chegou, nem as pedras precisam se mover pra você dizer que sim. É um lindo sonho-de-sonho que não acaba nunca. A menina toca o chão pela manhã que ainda é noite e pensa: - Não dá mais pra mim! ...Quando pela tarde que é quase noite chega, ela diz: - Eu preciso ficar mais um pouco!
Os porquês que tangem a imaginação incomunicável do poeta com a rosa, estão escondidos entre as paredes fixas que foram imortalizadas, santificadas. Está impregnado em minha pele e em cada copo d'água que minha garganta molha, se molha, te beija. Hiperbolicamente falando, sei que é imenso, maior que tudo, maior que os céus que cobrem nossos corpos enxutos e frios e rígidos, o que sinto e quero sentir. O Porto talvez mude de roupa, a Nau talvez vá para Xangai... quem sabe eu desencontre e me despeça desse amor em Duruelo de la Sierra ou na Estação da Luz que acorda em São Paulo. Quem sabe na parede de algum museu daquele, eu encontre seu rosto criptografado em línguas ilegíveis... não importa! Porque eu sei escutar seu canto até na língua das sereias, até na língua sua... muda. Eu me casaria em todas as igrejas de Portugal, mil vezes... na Capela das Almas, ou na Igreja dos Grilos, na Capela dos Alfaiates ou de Fradelos. Ao que molha... minha sede... eu iria! Iria a Funchal ou Coimbra, iria de Trindade a Brasília. No Congresso, nas ruinas gregas de areias que nem o Saara tem. Ao que molha... eu não iria! ...já estou! Mas a Nau não pousou da viagem... vou me molhando então, de Cecília à Florbela. Até o dia em que a rosa desejar se molhar e desça da sua casca fugidia... espero que o Porto não tenha mudado de roupa, nem ido a Xangrila, ou em Pernambuco. Ou ao que realmente, molha! ... mata a sede.

As folhas secas que passam, voam, entoam... cantos, risos, vestes... celestes! ...ao vento! Uma vez, minhas mãos viram uma lágrima caída num travesseiro; ela parecia ter vida própria! Se movia de acordo com as pálpebras que se tocavam lentamente, sem ar, asfixiadas e em sal. Minhas mãos viram também nascer uma rosa numa manhã ensolarada e quando pela tarde as buscava para regar, encontrou-se apenas uma pétala que dançava ao ar. Várias vezes, sorrisos me procuraram após noites longas, de choros longos, de dores vivas. Quantos lábios beijaram meu coração e quantos se foram, perdidos, sem terem me conhecido. A morte e a vida se entrelaçam a todo instante. Elas têm um ritual fora do comum. Ambas vêm quando a gente menos espera. Eu não sei falar bem dessa passagem em que a alma desencontra o corpo; nunca toquei-a com tanta precisão. Todavia, já vi muita gente morrendo ao passo que vive e vivendo enquanto quisera morrer. Efêmero é um copo d'água dos que bebem sem sede, ou o Rio Ugab na África do Sul que não permite que as crianças se banhem nas suas águas, ou a menina que brinca de fazer bolhas de sabão enquanto anda de bicicleta, sem as mãos.
Oh, mundo de sinestesia amplificada! O que é que você deixa passar? ... sua respiração? Sua história, razão? O que passa também fica, se congela, permeia... os poros da pele, os poros... dos olhos seccionados, das mãos que querem fugir do corpo e abraçar os sexos; das vidas breves e dos momentos eternos que as almas silenciam e formam impérios onde as paredes desenham o amor; onde as pedras ao chão desenham a dor que finge que finda. Construímos assim a humanidade! Homens fortes, de coração-fraco... velhos que tossem e não encontram repouso-abraço, mulheres que amam amar, mas não sabem que o amor grita no escuro-silêncio-rápido. As cartas de amor que os pombos levam às caixinhas do correio, que ninguém lê. Dos livros empoeirados que ficam na janela debruçados esperando um beijo do pássaro que pousa rápido, bebe e voa ligeiro: o beija-livro... E de que tudo passa, passa-rápido como caminha breve a sociedade em uma perna só. Onde o que é condenável se traduz em apenas, desconhecido. Ninguém anda contando quantas formigas-doces, passaram por nós num dia cheio, mas é fácil contar pra todo mundo quantos são nossos desgostos e afagos não recebidos. Ninguém conta quantas vezes não estendeu a mão por onde passou nas galerias, onde os mais desfavorecidos lhe pediam olhos amigos, mas se conta tão rápido o cardápio gordo do passeio no shopping das pessoas felizes que não são de verdade.
As águas que lavam meus cabelos já se foram, passaram. Essas linhas já são velhas, passaram. Este rosto não cabe mais em mim, porque já é risonho, passou. A dor não dói tão devagar, porque é forte, não passa. O amor já é mais amigo, porque se transforma e se eterniza. Não importa o que passa... O que vai determinar a construção do seu império de riquezas inumeráveis (as que não precisam ser tocadas) é somente o que fica. Fique e demore... dentro, fora, entre!

Quando eu era pequena, sonhava em ser professora e em poder exercer a linda arte de ensinar! Agora, que mais velha me faço, estou prestes a realizar um sonho de menina. Mas agora é diferente: descobri que vou aprender ao invés de ensinar! Me demorei numa leitura que eu deveria ter feito a algum tempo atrás. Eu teria aprendido a caçar pipas antes. Teria aprendido a importância de se exercer uma coisa chamada, coragem. Da vida que se vive, recontada... tudo passa muito rápido. É a velha efemeridade dos fatos que o tempo me ensinou ser o regente das vidas dos seres nesse mundo. Do sonho que se pega, pouco se fica; das pipas que no céu são "entoadas", só se escutam algumas depois de algum tempo.
Eu não sentia a dor assim de forma tão intensa. Eu não chorava com lágrimas tão salgadas. Eu não tinha tanto medo do que me espera e nem vontade de te arrancar soluços com minhas linhas. Eu não tinha a escrita tão carregada de teias; numa dessas, pode estar você! (...quando mais moça, brincava de inventar histórias, sem escrevê-las. Falando sozinha, com o vento... entre dinossauros e mundos fantásticos, eu não sabia traduzir em letras os meus devaneios que pareciam tão poéticos!) ... Pelos corações por onde passei, soube deixar um sorriso de despedida imergido em dor; em cada corpo que morei, soube deixar saudade do que não vivi.
Hoje, tudo o que eu queria era ser uma viajante. Hoje, tudo o que sou... sou uma fazedora de ficções reais... realidades simples, de pensamentos soltos e confusos que se fazem árabes, irlandeses ou xiitas se você me pedir. De tudo que sei, sei pouco. Do muito que não me fora permitido conhecer, sei bastante. Quereria saber tocar as flores antes de beijá-las. Quereria saber fotografá-las antes de arrancá-las. Quereria mais: saber esquecê-las antes mesmo de tê-las inventado. Eu só escrevo, porque não aprendi a fazer nada disso! - "Seria mais útil medicina", todos falam. Mas com minhas linhas, se te arranco soluços ou espanto, me contento. Mentira! Se me contentasse, pararia... Tudo me distrai e chama a atenção. Da estrela única do céu fazendo companhia à lua em formato de concha, até a menina que brinca de ser mulher e dirige as suas próprias escolhas.
Direção! Da vida que se vive, recontada... eu só espero poder seguir o que me diz meu coração. Azar o meu que eu não o ensinei a ler Cecília: "Ou isto, ou aquilo"... ele deixaria de ser faminto e de me pedir pão e vinho ao mesmo tempo; pois um sucumbe ao prazer do outro e não fazem boa junção. Dos pares ímpares da vida que se vive, recontada... sou um coringa na mão do bom jogador. A jogada maior, espero que o façam... e que se lembrem do meu desejo primeiro! Que eu não me perca da minha coragem-ausente, e nem mesmo do meu sorriso que desfila sobre o palco de dor que alguns fingem conhecer... e que da vida que se vive, recontada... essas linhas minhas, possam fazer parte de você.
Um barquinho na água, a menina... que virou mulher. Não tem remo, nem espada. A imagem sua, se reflete no espelho que não é de ninguém. A menina levada, de fala ousada e que ainda brinca de bem-me-quer nas cifras que forma com a língua dos dedos a escrever. O barquinho, a água, o banco do remo que não se tem. Eu só quero que: ele leve as linhas pelos sete mares. Quem sabe um dia, alguém me chamaria de poeta... quando a loucura fosse considerada sã e quando os olhos aprendessem a falar.

Eu prometi a uma menina hoje a tarde que escreveria sobre um Ser que desperta quando o Sol dorme. A penúltima letra do nome da menina é a primeira da nomenclatura que revela essa "entidade" tão ilustre. Cá estou e me deixo fofocar sobre essa personagem! Vaidosa, tímida, silenciosa, ela se mostra. Escondeu um sorriso e fez brotar na face um ar mais sereno, sério, cheio de mistérios! Gosto de contemplá-la, sorrir pra ela... sentar na pontinha da sua calda e lhe revelar o que o brilho da manhã talvez queira me levar. Eu já pensei em morar na Lua. Demorei e ela acabou vindo morar em mim. Curioso! As suas transições são as minhas; ela se move de acordo com os acordes que a Terra forma. E cada nota tem um som perfeito! Até que um dia, me foi permitido escutar a Lua cantar. Os lábios se moviam lentamente e eu como de costume, não movi nem os olhos para que ela não parasse. Eram respondidas minhas melancolias. E ela vociferava que as dores dela ninguém conhecia. Disse que é a metade perfeita de um Ser que só aparece de dia. Quando ela chega, ele se foi. Quando ela desce, ele sobe... nunca se encontram. Exceto... num eclipse! Do grego Ekleipsis, que significa, desvanecer! Funciona mais ou menos assim: a Lua passa na frente do sol, acena rapidamente e balbucia três palavras apenas; ele deixa ela partir, e diz outras quatro. É a felicidade mais clandestina que já vi. Mas aqueles breves segundos se fazem únicos e eternos para as entidades celestes. Olha menina, eu não sei falar de nada que mora em mim! Mas a Lua pediu pra te dizer que ela abriga as dores de todos os mortais e que o motivo de não sorrir é a dor que sente ao tentar esfriar até o congelamento total de cada uma; pra que a gente suporte as nossas, com menos peso. Ela olha num ponto fixo, sem se virar, pra que ninguém se sinta desmerecido quando a contempla. Assim, todos podem olhar de qualquer ângulo e ver a mesma Lua. Exceto... aqueles que desejam olhar por dentro. Estes sim, verão um ventre que sabe abrigar estrelas. Ela adora quando eu descanso na sua calda. Ela se sente tocada, abraçada, beijada... quase humana!